Do fundo do poço à luz no fim do túnel

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Os dados econômicos de 2013 têm sido insistentemente acompanhados por um recorte negativo ou, no melhor dos casos, por ressalvas.

Nada contra a notícia ruim ou água no chopp: é sempre bom desconfiar de dados divulgados como muito bons. Mas, em economia, também deve-se desconfiar de notícias “embrulhadas” em pacotes apocalípticos.

A última foi o IBC-Br, índice de atividade econômica do Banco Central, considerado uma prévia do PIB, e que, na falta de uma medição mensal do PIB, acaba sendo uma boa baliza (mas não é exata… às vezes é um pouco maior, às vezes é um pouco menor, mas na média dá uma boa ideia).

Bom, acontece que as manchetes das notícias publicadas em alguns dos principais veículos jornalísticos já apontam para um singular (e não plural) tratamento da notícia:

IBC-Br sobe 1,13% em junho, abaixo do esperado, aponta BC (UOL e Valor, 15/08/2013)

FGV vê economia em desaceleração (Folha, 15/08/2013)

Economia brasileira desacelera no 2º tri e cresce 0,89%, aponta BC (G1, 15/08/2013)

Atividade econômica desacelera no 2° tri, mas cresce 0,89% (Agência Brasil, 15/08/2013)

***

Já que todas as ressalvas pessimistas e catastrofistas já foram bem exploradas por aí, minha contribuição será ressaltar o lado bom.

Olhando apenas no curto prazo, é verdade que, mesmo com a elevação de 1,13%, o resultado de junho não recupera as perdas de maio, quando o índice registrou queda de -1,50% (fato não registrado nem mesmo na imprensa catastrofista).

Ainda assim, há motivos para não se desesperar: o crescimento da média do IBC-Br de janeiro a junho é de 3,2%, muito acima do registrado na mesma época no lamentável ano de 2012 (0%), quando o crescimento do PIB ficou em 0,9%. Por outro lado, está abaixo do registrado no mesmo período de 2011 (4,28%), ano em que o PIB aumentou 2,7%. Uma conclusão apressada poderia apostar que o crescimento do PIB de 2013 ficaria entre os dois anos anteriores. Como não tenho pressa, sigo com a análise.

Observando o gráfico abaixo, que abrange o período de janeiro de 2010 a junho de 2013, percebe-se que o ano de 2010 foi marcado por uma aceleração quase constante a partir de fevereiro, na variação da média do IBC-Br de 12 meses, em relação à média do período anterior. Daí o “pibão”.

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Já em 2011, ao contrário, a desaceleração foi constante, mas, como a média dos 12 meses partia de um nível de atividade bastante elevado, o resultado final foi modesto, mas não catastrófico: alta de 2,7% apenas.

Por fim, em 2012 a desaceleração continuou, e ainda por cima as séries de 12 meses captavam a desaceleração do ano anterior. Daí o “pibinho”, afinal.

Mas há uma luz no fim do túnel: o fundo do poço deste ciclo já ficou para trás.

O gráfico mostra que, a partir de dezembro de 2012, mês do ciclo em que foi atingida a menor variação da média de 12 meses em relação ao ano anterior, foi inaugurado o início de uma tendência de recuperação. O problema é que uma recuperação partindo de um crescimento do PIB de 0,9% não quer dizer grande coisa. Como ter alguma pista, então, sobre qual será o nível desta recuperação?

Sem recorrer a sofisticados modelos de análise conjuntural de atividade, uma possibilidade mais simples é buscar entender padrões a partir da observação de uma série histórica maior, como a do gráfico abaixo (clique sobre ele para vê-lo em tamanho grande).

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Fazendo um “zoom in” no primeiro gráfico, torna possível ver como se deram os ciclos de crescimento no Brasil entre dezembro de 2004 até junho deste ano. Dá para notar que, apesar do “pibinho”, 2009 foi também um ano de recuperação em seu trimestre final; inversão de tendência insuficiente para compensar os dois trimestres seguidos de queda (4ºT/2008 e 1º/2009), mas que possibilitou a recuperação já em 2010 das perdas da recessão do ano anterior.

Já a retomada deste ano acontece em um patamar acima que o de 2009-2010, mas numa velocidade bem mais reduzida. Aqui, porém, vale enfatizar: a tendência é de retomada. A questão é saber qual o “fôlego” dessa inversão de tendência: será o de padrão mais próximo aos consistentes 42 meses seguidos de aceleração de 2006 a 2008, ou mais parecido com a súbita aceleração de 13 meses entre 2009 e 2010?

Mesmo que o segundo semestre seja exatamente como o mesmo período do péssimo ano de 2012, ainda assim, o IBC-Br para 2013 ficaria em torno de 3,2% (como a projeção abaixo). Não é satisfatório: se confirmado um crescimento de 3,2%, a média de crescimento anual do PIB durante os três anos de governo Dilma ficaria em 2,25%. Mas seria muito melhor do que as projeções catastrofistas que dão de barato que o crescimento não passará de 1,5%.

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Mas a tendência de 2013 é de retomada e a de 2012 era que queda: ou seja, as perspectivas são melhores hoje do que em agosto do ano passado.

O cenário pintado pelo IBC-Br sugere otimismo para os próximos meses. Meu palpite é que ao menos três fatores importantes que devem trazer fôlego para a retomada ao até o fim do ano, que estão no horizonte do segundo semestre: 1) os leilões e concessões que devem atrair alguns bilhões na economia; 2) a desvalorização acelerada do real, uma vez superado o período de volatilidade da moeda gringa, deve estabilizar o dólar em patamares mais elevados, aumentando a competitividade e a receita das exportações; e 3) apesar da interrupção da queda dos juros com reversão da tendência, perspectiva para a taxa é permanecer em um dígito até o fim do ano, o que não deve ser um grande entrave ao crescimento, já que o patamar é abaixo dos três anos anteriores.

Soma-se a isso a tendência de desaceleração do índice de inflação, que deve trazer a a taxa oficial para dentro da margem da meta com alguma folga; a retomada da indústria de bens de capital; e a tendência do nível de desemprego que, apesar da desaceleração de 2012, vem se mantendo baixo – e, com uma provável aceleração da economia, deve manter-se nesse patamar até o fim do ano.

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3 Comentários

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3 Respostas para “Do fundo do poço à luz no fim do túnel

  1. Yone

    Muito bom, mas os gráficos estão meio difíceis de ler. Dá pra aumentar o tamanho das letras e números?

    • O mais fácil para ver os gráficos melhor é clicar sobre eles. Aí a imagem dele aparece bem grande, numa outra página (não é o ideal, já que quebra a leitura, aí você teria de voltar para seguir o texto). Na verdade não sei como fazer o gráfico ficar mais fácil de ler… Vou tentar trabalhar nisso para melhorar nas próximas postagens.

  2. Pingback: Indústria de bens de capital cresce e puxa ciclo de retomada da economia em 2013 | Novas Cartas Persas

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