O jogo de 7 erros de Campos

Imagem

A última semana de setembro e primeira semana de outubro foram (e têm sido) decisivas para compor o quadro eleitoral para a disputa presidencial no Brasil em 2014.

O primeiro passo para a composição do tabuleiro foi dado por Eduardo Campos, presidente do PSB, que decidiu sair do governo, a pouco mais de um ano antes de o mandato de Dilma terminar.

Campos já vinha realizando críticas abertas ao governo, mesmo fazendo parte de sua base de apoio, o que sugeria sua intenção de disputar a cadeira de Dilma no ano que vem.  Agora, então, Campos fica numa posição muito mais confortável para atuar e construir sua candidatura. E muito provavelmente atinge o ponto de não retorno. Será quase impossível, agora, que ele tenha condições políticas de voltar a apoiar o governo Dilma em sua tentativa de reeleição. Agora, para Campos, é tampar o nariz e seguir com a escolha. Não há mais espaços para dissimulações, ambiguidades e barganhas.

Sua decisão não foi apressada, mas foi.

De um lado, ele esperou pacientemente por quase um ano, em meio a muita especulação, antes de agir. E agiu mal.

Por outro lado, sua ânsia por chegar à Presidência, no entanto, o fez queimar etapas. Uma candidatura de um líder de um Estado pequeno e fora do eixo Rio-São Paulo-Minas já seria de difícil sustentação. Mas ainda pode ser pior. Ao sair do governo para se candidatar, Campos comete alguns erros políticos que podem ter implicações ruins para ele e para o PSB:

  1. Em nenhum momento as intenções de voto para Campos atingiram dois dígitos. Ao contrário. A decisão de Campos de sair do governo (para se lançar à Presidência) acontece no momento em que sua força eleitoral está em declínio, em 4% segundo o Ibope. Isso não seria um problema se Campos tivesse algum tipo de “trunfo” na manga, como Dilma em 2010, para colocá-lo na mídia (se ele fosse, por exemplo, o principal ministro e candidato de um presidente altamente popular). Ou então se ele fosse um nome de consenso da oposição em um cenário de crise econômica aguda. Ou se seu partido tivesse muito tempo de TV para torná-lo conhecido; ou se fosse capaz de atrair grandes partidos para uma coligação eleitoral para fazer uma campanha extremamente bem-feita. Campos parece não se encaixar em nenhum desses casos. Campos deve atrair partidos pequenos e desconhecidos para sua empreitada. O resultado nesse caso é um candidato pequeno e desconhecido, do começo ao fim da campanha.
    grafico-ibope-presidente_setembro
  2. A segunda dificuldade da candidatura Campos é que ele próprio fez parte do governo Lula. Mais: seu partido não só fez parte do governo nos dois mandatos de Lula, como fazia parte do governo sob Dilma, totalizando quase 11 anos de apoio. Difícil justificar ao eleitor porque justo agora o partido decide fazer oposição. Depois de mensalão em 2005, depois da recessão de 2009, depois do fim do governo Lula em 2010. Nenhuma dessas “janelas” de saída foi usada como pretexto para migrar para a oposição e disputar as eleições. O PSB permaneceu como fiel aliado, e ocupou cargos no governo sem nenhum desconforto.

    Mais do que a mera questão de coerência, essa esquizofrenia do PSB (partido de oposição ao próprio governo do qual fez parte) também impõe uma dificuldade na formulação do discurso. Afinal, o PSB é oposição ou governo? O Partido Socialista Brasileiro vai fazer um discurso efetivamente socialista, à esquerda do PT? É efetivamente onde se situa o partido? Existe espaço para uma candidatura competitiva à esquerda do PT? De fato, a sinalização discursiva de Campos sinaliza que será um candidato à direita do PT. Seu esforço tem sido o de atrair empresários, de um lado, e políticos da direita, como os Bornhausen e Heráclito Fortes, de outro. As questões que seguem são as mesmas também no outro campo do espectro: existe espaço na centro-direita para candidatos do PSB (Rede) e PSDB? Qual a diferença entre os discursos? Qual os projetos que justificam suas candidaturas? O problema aqui é maior para o PSB que para o PSDB: ao sair do governo, o PSB rejeita o lulismo e o perde como discurso e projeto. O legado de Lula já não poderá mais ser reivindicado pelo PSB.
    Campos bornhausen e fortes

  3. A terceira dificuldade é justamente o “fator Lula”. Em que pese a falta de densidade eleitoral, Campos tem tido êxito político em seu próprio Estado como governador. Certamente a maior parte da (pequena) intenção de voto que apresenta até agora vem de Pernambuco. O problema é que essa pequena intenção pode se reduzir ainda mais quando a campanha começar, e por um motivo simples: o fator Lula. Lula é tão amado em Pernambuco quanto Campos. E sempre teve espaço para ambos nos corações e mentes pernambucanas porque os dois vinham trabalhado do mesmo lado. Agora, quando virem ambos em lados opostos, com Lula no palanque de Dilma, e Campos criticando a candidata de Lula, vai se formar um nó na cabeça do eleitor. Nó que, num segundo momento, deve dividir o eleitorado de Campos no Estado, reduzindo a nível nacional o pouco a quase nada. Hoje, as pesquisas que mostram Campos com 4% não captam o “fator Lula”.Lula e campos
  4. Sua decisão não poderia ter pior timing: a saída do PSB do governo acontece quando a popularidade de Dilma e sua intenção de voto está em franca recuperação. A presidente subiu 8 pontos em dois meses (o que seria espetacular em outras circunstâncias, não tivesse ela perdido 28 pontos antes disso). A popularidade “pessoal” da presidente chegou a 54% de aprovação, segundo o Ibope.
  5. Um fator que poderia justificar um rompimento com o governo seria algum tipo de grave distúrbio econômico (elevação da inflação, recessão, aumento do desemprego) ou político (grande escândalo de corrupção envolvendo a presidente ou ministros próximos). A decisão de romper com o governo, no entanto, vem num momento em que o desemprego está em queda, assim como a taxa de a inflação acumulada em 12 meses. Por fim, ainda que a atividade econômica não esteja “bombando”, o 2º trimestre subiu 1,5%, superando todas as expectativas. E, apesar do eterno caso do mensalão, não houve nenhuma grande denúncia de corrupção durante o governo Dilma.

    governadores PSB2.jpg

  6. Apesar de ser um partido pequeno, o PSB tem um grande trufo: o número de Estados que controla. Até a decisão de rompimento, eram nada menos que 6 governadores. Além de Pernambuco, o partido governa Piauí, Ceará, Amapá, Espirito Santo e Paraíba. Estados considerados pequenos politicamente, mas que, no conjunto somam cerca de 22 milhões de eleitores, ou 16% do total. Nada mal. Seria um bom começo, não fosse o fato de a decisão precipitada de romper com o governo para lançar candidato próprio não tivesse causado um racha entre seus principais líderes. No Ceará, os irmãos Gomes já saíram do partido. Cid será apoiador de Dilma. No Espirito Santo, Renato Casagrande foi contra a saída do seu partido do governo: é outro que deve fazer apoio velado a Dilma. No Amapá, Camilo Capiberibe diz que “não foi ouvido” sobre a saída do PSB do governo. Casagrande e Capiberibe devem se candidatar à reeleição e têm vices do PT. No Piauí, Wilson Martins era vice de Wellington Dias, que agora deve se candidatar de novo ao governo. Ou seja, romper com o PT no plano nacional, o PSB enfraquece as alianças nos Estados que governam e abre espaço para mais um adversário. Até o momento, o custo da ambição eleitoral de Campos já custou ao PSB 1 dos 6 Estados que controlava até agosto.
  7. A ação de Campos de trazer o PSB para fora do governo, acontece num momento em que dois novos partidos são criados. Embora um deles (Solidariedade) possa até se juntar ao governador de Pernambuco (mas mais provavelmente será aliado do PSDB), o outro (Pros) deve apoiar Dilma. Isso quer dizer que o Pros pode atrair parlamentares do PSB que tem interesse de permanecer aliado a Dilma. De fato, isso já acontece: ao menos 6 dos 35 deputados devem migrar para o novo partido.

***

O ato de Campos ao sair do governo para se lançar à Presidência, portanto, é um passo arriscado, não só para sua ambição pessoal, mas para a ambição do próprio partido.

Conclusão: em uma só tacada, Campos comete 7 erros que podem sepultar sua perspectiva de ser presidente num futuro próximo e também a de seu partido de seguir crescendo e se tornar a terceira força no cenário político brasileiro. Ao queimar etapas, Campos e o PSB correm um sério risco de sair da campanha de 2014 menores do que entraram.

Imagem

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s