E o debate das eleições 2014 se desloca para a direita

Gangorra

Apresentado en passant na Carta Capital de 2 de outubro, o argumento do filósofo e cientista político Marcos Nobre é poderoso e de rara lucidez: “a candidatura de Campos é uma vitória histórica do ‘peemedebismo’, pois reduz ainda mais a possibilidade de um governo progressista contornar o conservadorismo”, parafraseou a revista.

Mais concretamente, o fortalecimento do peemedebismo é um reflexo do futuro debate político a ser travado em 2014, e que tende a se deslocar para a direita, por motivos internos e externos à coalizão que tentará a reeleição.

Internamente

Nunca antes na história deste país o PMDB terá tido tanta força dentro de uma coligação. Será, como em 2010, o principal aliado do PT, mas terá um peso e uma importância ainda maiores para a candidatura de Dilma. Essa importância, claro, deverá ter implicações no programa e no discurso da candidata e, em caso de vitória, numa distribuição ainda maior de cargos igualmente importantes.

Assim, por dentro, o “peemedebismo”, tal como definido por Nobre, poderá ser a lógica política que pode encerrar o lulismo. Pois a marca do “peemedebismo” é o conservadorismo no sentido mais estrito: atua para conservar as coisas como estão. O peemedebismo não se define por um projeto específico para fora dele mesmo, mas por uma lógica de manutenção do poder e do status quo. Não por acaso, o governo Dilma, até as Manifestações de Junho foi um governo marcado pelo imobilismo.

Externamente

Na arena eleitoral, os votantes à esquerda do espectro ideológico terão apenas uma escolha possível: Dilma. A este grupo não seria apresentada nenhuma alternativa competitiva à esquerda da presidente. O problema para esses eleitores é que os partidos e grupos conservadores que compõem a candidatura Dilma agora ganham mais força com a saída do PSB, ao mesmo tempo em que não se observa nenhum tipo de sinalização de avanços à esquerda da parte de Dilma. Votar nela significa, muito mais do que antes, votar no PMDB, PSD, PP, PR, PTB. Trocando em miúdos, significa colocar no poder Sarney, Katia Abreu, Maluf, Blairo Maggi e Roberto Jefferson, com muito menos contrapesos progressistas.

Dilma, por sua vez, não terá incentivos para “radicalizar” o seu programa e o seu discurso. Ao contrário: com a sua aliança sendo a mais conservadora dos últimos 12 anos, seu discurso vai ser calibrado para atender a um eleitorado que não é marcadamente de esquerda, já que o cálculo é que o eleitor à esquerda “está ganho”, mas não o eleitor de centro. Esse quadro era bem diferente logo após as Manifestações, quando era a polarização de ideias e programas parecia ser a lógica para 2014, tendo em vista o que sinalizavam os discursos e ações da presidente em resposta ao movimento popular. Mas, no fim, o peemedebismo foi mais forte.

Mas o cálculo da “escolha racional” pode sair pela culatra. O resultado da falta de uma candidatura competitiva verdadeiramente de esquerda nas eleições de 2014 poderá redundar no pleito com maior número de abstenções, votos em branco e nulos desde 1989. Serão os “órfãos” da esquerda se fazendo ouvir ao se recusar a escolher um candidato, em um momento em que nunca a mobilização popular de rua foi maior, e que a esperança de mudança foi mais forte.

Negligenciar seus aliados históricos (movimentos sociais, setores de esquerda) quase lhe custou o governo a Dilma. Quando a porca torceu o rabo, conservadores, mídia e a classe média, antes em lua de mel com Dilma, foram os primeiros a abandoná-la. No momento de crise, a presidente correu para a esquerda, como uma filha pródiga. Com a situação mais calma, as coisas vão voltando ao normal. O que Dilma vem fazendo até agora vem sendo muito pouco para conquistar os corações e mentes dos setores que nunca abandonaram o barco. A tarefa política de Dilma é buscar resgatar um projeto de esquerda e convencer seu eleitor mais fiel que, ao votarem nela, não estarão avalisando um governo com pouco ou nenhum potencial transformador, mas uma coalizão que simplesmente irá “manter” as “conquistas sociais” do passado recente.

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