Mitos econômicos brasileiros #1: “O Brasil tem a maior carga tributária do mundo”

Mitos são assim: alguém cria, outros repetem e os demais acreditam e passam adiante. E quanto mais a narrativa é ouvida sem reflexão, mais o mito se torna incontestável e se torna verdade. Também em economia os mitos existem. Mas raramente resistem à frieza dos fatos duros. Assim, o Novas Cartas Persas inaugura a seção “Mitos Econômicos Brasileiros”, que vai procurar justamente estimular a reflexão e o debate para desmistificar o senso comum construído e disseminado no noticiário.

Os primeiros três mitos da seção se referem à famigerada “carga tributária”, eternizada todo ano, em “recordes” registrados pelo diletante “impostômetro”, sempre uma boa pauta para os últimos meses do ano. Não raramente, as notícias do “impostômetro”, data de recolhimento de imposto de renda ou sobre carga tributária vêm também acompanhadas da opinião (sem fundamento) travestida de fato: “a carga tributária do Brasil, que é a mais alta do mundo…”; ou ainda “o brasileiro é quem mais paga imposto no mundo…”. E assim ficamos.

Não é beeeem assim. Estamos longe de ter a maior carga tributária do mundo. Vamos aos fatos. Quando comparamos com os países da OCDE, em geral capazes de prover serviços públicos de qualidade, constatamos que o Brasil não está nem no “top 10” da lista da OCDE:

 

Carga Tributária OCDE e Brasil

 

Em comparação com os países ricos, não temos, nem de longe, a maior carga tributária do mundo: o país está no meio da tabela, é o 15º entre 35 países. Em listas com mais países, como o da Heritage Foundation, o Brasil cai para a 30ª posição.

O primeiro mito foi “desmistificado”.

 

Obs: A tabela indicava de maneira equivocada a Hungria no topo do “ranking”, apesar de sua carga tributária bruta ser claramente ser menor que a de oito dos países selecionados. O equívoco foi causado por um espaço que impediu o ordenamento correto na planilha, mas não invalida o argumento do post e tampouco mudava a posição relativa do Brasil na tabela. O erro foi corrigido. Obrigado ao leitor  Paulo Penteado por apontar o equívoco que passou batido pelo autor (e por tantos meses!).

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35 Comentários

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35 Respostas para “Mitos econômicos brasileiros #1: “O Brasil tem a maior carga tributária do mundo”

  1. OK! mas o problema é que os índices de gastos públicos em relação ao PIB são perto dos britânicos (35,2%), mas os serviços públicos (Saúde, Educação, segurança) prestados pelas esferas governamentais no Brasil são anos-luz atrás dos britânicos que são apenas 6o. maior economia (Brasil é sétimo). Devemos nos comparar com Chile (20,8%) ou Mexico (19,7%).

    • Leonardo

      considerando que a população aqui eh três vezes maior que a britânica, com um PIB que não tem a mesma proporção… ficaria fácil ter serviços públicos melhores se a população brasileira fosse de 53 milhões de pessoas.

      • spad

        Toma vergonha Leonardo, você sabe que o Brasil vai mal.

      • Lurdes

        Parabéns, Leonardo. Seu raciocínio é perfeito.

      • Falcone

        Leonardo, você tá zoando né? você tá de brincadeira, só pode!!!

      • arthur guilherme

        muito coerente este raciocinio.
        Ex: A Suécia tem um PIB per capita de $57,909, e uma carga tributária de 47,9%. Ou seja, a grosso modo arrecada cerca de $27.734 anuais por cidadão.
        No Brasil, pib per capita de $11,139, carga tributária de 34,3%, são $3.820 por cidadão.
        Sabemos que nossa administração da grana pública e roubalheira beiram o absurdo.
        Mas de forma alguma poderíamos exigir serviços públicos similares aos países desenvolvidos, dado que a arrecadação deles por cidadão é absurdamente maior. Para isto é necessário o país crescer e muito.

      • João Mezzomo

        “Sabemos que nossa administração da grana pública e roubalheira beiram o absurdo”. Esse é mais um mito a ser desfeito. Segundo ONU e outras instituições que estudam o assunto, o desvio de impostos no Brasil dá 100 bilhões de reais por ano, o que dá R$ 5,00 por mês per capita, um número que se fosse zerado (algo quem nem Noruega e Finlândia conseguiram) não resolveria nada. Esse escândalo permanente contra a corrupção é mais um artifício do “bom brasileiro”, que aceita qualquer achismo para se declarar irresponsável pelo seu próprio país. Só que ele não é!

  2. Pingback: Mitos econômicos brasileiros #2: “O Brasil tem uma carga tributária muito elevada” | Novas Cartas Persas

  3. Antonio Nunes Junior

    Cem mil reais é muito dinheiro pra compra um carro? Depende. Nós pagamos por mercedes e recebemos fuscas, em matéria de serviços do Estado que a única coisa que faz bem é cobrar impostos. Portanto, esses impostos são os mais caros do mundo sim!

  4. Antonio, sim, como foi publicado no post seguinte (mito #2), muita gente paga muito imposto (principalmente assalariados) e, sim, não tem o retorno em serviços públicos de qualidade… Você tem toda a razão: os serviços públicos do país são ruins, em geral.
    A questão de fato, porém, é conhecer suas causas: se é um mero problema de voluntarismo/gestão ineficiente ou se é uma questão mais profunda e estrutural do funcionamento do nosso Estado.
    É claro que há desperdício e falhas de gestão aqui e ali – e é bom que se combata o desperdício. Mas me parece que o fundamental, o grosso do problema, isto é, “ter fusca pelo preço de mercedez” (para te parafrasear) está em outra parte. Há “ralos” muito maiores por onde o dinheiro público escorre que nada têm a ver com má gestão, corrupção ou falta de vontade dos servidores em entregar bons serviços.
    Vamos discutir um desses ralos no post seguinte.

  5. Farhad, a questão é saber se Brasil e Dinamarca/Suécia/Noruega são realmente comparáveis. Para comparar é preciso partir de um ponto em comum para descobrir as diferenças que explicam resultados distintos. Vimos no post seguinte que, apesar de o Brasil ter uma carga tributária bruta entre as 20 ou 30 maiores do mundo, o que fica efetivamente para o Estado, depois de transferências diretas para famílias e firmas, coloca o Brasil bem para trás no ranking. Ao compararmos o que fica no Estado dinamarquês e no Estado brasileiro, em relação à sua própria riqueza produzida, temos que o Estado brasileiro arrecada, após transferências, 19% do PIB, e Suécia e Noruega arrecadam 30% e 28% do PIB, respectivamente. Dada a diferença de PIB per capita, somada a essa grande disparidade de capacidade fiscal estatal, a comparação torna-se inócua (fora outras contingências fiscais que temos e que os nórdicos não têm e que comprometem muito o Orçamento mesmo depois de transferências).

  6. Clau

    Mas veja lá: há países que estão abaixo de nós e que oferecem serviço de qualidade enquanto que nós…. E lá estão o Japão, a Irlanda, os EUA, o Canadá, Austrália… Juro pra vc que não reclamaria da nossa carga tributária se eu tivesse todos os serviços devolvidos pelo Estado na mesma proporção em que os pago. Matéria ‘fail’. Argumentação inconsistente pois faz uma comparação usando tabela. Isso não prova nada nem tão pouco desmistifica coisa alguma. A materia usa os mesmos artifícios de uma VEja, por exemplo. Tomem cuidado para não irem pelo mesmo caminho só para tentarem “provar” o que não é provável, pois esse tipo de argumentação não convence quase ninguém, nem mesmo quem simpatiza com a “causa”.

    • Clau, é verdade que o Brasil está na frente de países como os que você mencionou.

      Porém o objetivo do texto foi mostrar que o Brasil não tem A maior carga tributária do mundo, o que não significa que muita gente no país não pague muito imposto, porque sabemos que paga e não recebe contrapartida em serviços na qualidade condizente com esse pagamento.

      Sim, há países que têm carga tributária menor, mas que oferecem melhores serviços públicos. Mas é preciso ver se os Estados têm, de fato, a mesma quantidade de recursos uma vez excluído as transferências às famílias (como aposentadorias) e pagamento de juros e amortização da dívida. Aí podemos ver o que os países fazem de diferente com o mesmo recurso (em relação a seu respectivo PIB).

      Esse “mito” superlativo (“a maior carga tributária do mundo”) é repetido regularmente na imprensa. Outro dia mesmo ouvi uma âncora de uma TV fechada afirmando enfaticamente esta bobagem. Há lobbies fortíssimos a favor da redução de impostos (em lugar de lobbies pela melhoria dos serviços) que usam esse “mito” para avançar a sua agenda. O país, no entanto, está longe da liderança, nem no top 10 do mundo está (se incluir mais países à lista, vamos lá para 30º). Talvez isso não seja muito convincente para você, o que é compreensível.

      Isso porque o argumento está sendo dividido em partes, para se adequar ao formato de blog. Se você ler o 2º mito (post seguinte) vai ver que o texto tem uma certa coerência em relação ao 1º, já que foi escrito como um só e, depois, decidi quebrá-lo em dois (o que enfraqueceu o 1º).

      Ainda terá um 3º texto da série que deve ser publicado amanhã. Mas de todo modo eu o convido a ler um artigo do Ipea que inspirou a série http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/livros/09_07_07_comunicapresi_23_cargatributaria.pdf .

      A questão é ir além da constatação evidente de que não temos os serviços de qualidade pelo que pagamos, e ir mais fundo nas causas, procurando desmistificar aquilo que é repetido e inquestionável.

  7. Cícero

    A questão que o texto não mostra é exatamente, qual o nível de vida dos habitantes dos países acima do Brasil em comparação com a média dos brasileiros, e qualidade comparada dos serviços oferecidos.

    • Cícero, você tem razão: o texto não toca na questão da qualidade dos serviços. Mas essa é a discussão “final” e mais importante (e muito mais complexa).

      Mas antes de chegar lá há outros debates a serem travados e outros falsos debates a serem desmistificados. O que a seção de “mitos econômicos brasileiros” visa é justamente investigar as ideias simplistas e/ou sem embasamento que, no entanto, são poderosas e servem de base para certas políticas que têm consequências importantes – e não tocam na questão fundamental da qualidade dos serviços.

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  9. Luiz

    Não podemos ser injustos com nós mesmos. Nenhum estudo sobre asituação tributária brasileira, sobretudo se a compararmos com a de outras nações, será honesto senão considerar a arrecadação per capita. Só ela mostra que,
    infelizmente, ainda somos um país pobre.

    Observe que o Estado brasileiro recolhe somente US$ 7.954 por pessoa, enquanto os EUA percebem US$ 23.183 por pessoa. Os países europeus, sobretudo no norte do continente, onde há serviços públicos de excelência, recolhem quase dez vezes mais per capita do que o Brasil. A Noruega, por exemplo, tem uma arrecadação per capita de US$ 75.383!

  10. Luiz

    A arrecadação per capita nos dá uma visão muito boa da questão do mito da carga tributária.
    http://www.ocafezinho.com/2012/11/26/a-insistente-falacia-sobre-a-carga-tributaria-brasileira/

  11. O Brasil é um País continental. A inglaterra é do tamanho de São Paulo. Não dá pra comparar países europeus que são minúsculos em relação ao Brasil e também são milenares e durante muitos anos exploraram os países como os da America do Sul, Central, India, etc… daí também advém suas riquezas ( através da exploração).

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  15. lers77@hotmail.com

    A grande diferença é que no Brasil é um dos países em que a população mais sonega imposto, e reclama que paga muito!! Se não houvesse sonegação com certeza nosso país seria um país muito melhor, mas as pessoas tem uma facilidade imensa em justificar isso, e apontar o dedo chamando políticos de corruptos.

  16. Naiana

    a diferença eh o retorno para população

  17. Pingback: Mitos econômicos brasileiros #7: “O Brasil tem a maior alíquota de imposto de renda do mundo” | Novas Cartas Persas

  18. Como o primeiro da lista tem 38.9, enquanto o segundo tem 48? Seria um erro de digitação?
    Também achei estranho que em todos estes meses isso não tenha sido comentado. NInguém lê a tabela que contém os dados mais importantes do texto? E o problema está logo na primeira linha da tabela, não perdido no meio,

    • Olá, Paulo. De fato é um erro, muito obrigado por apontá-lo. Deve ter sido uma falha do Excel que não ordenou a Hungria e acabou passando batido por min. Peço desculpas e vou corrigi-la esta noite. O erro, no entanto, não invalida o argumento e não afeta a posição relativa do Brasil na tabela. Abraços!

  19. João Mezzomo

    Olá,
    Se você pegar esses mesmos trinta países e colocar por ordem de ARRECADAÇÃO DE IMPOSTOS PER CAPITA (isso pode ser feito multiplicando o percentual da tabela pelo PIB per capita, o qual pode ser obtido em http://goo.gl/10Euen) teremos uma bela surpresa: O Brasil fica entre os três últimos, se não em último lugar, entre os que menos arrecada impostos per capita, disparado. Neste quesito o Brasil fica abaixo da posição 60 da Eritage Foundation, com arrecadação de R$ 708,00 per capita por mês no ano de 2013. Sobre isso veja o artigo do Estadão http://goo.gl/aPMZk. E tem gente que quer IDH de primeiro mundo. OBS.: É incorreto nos compararmos com Chile e EUA, pois os mesmos não tem previdência pública, a qual consome no Brasil no mínimo 10% dos 35% de carga tributária sobre o percentual do PIB. Também a Coreia é complicado, pois sua economia é fortemente baseada em exportações de manufaturados, que costuma não ter tributação, e o sistema previdenciário é muito recente lá, demandando poucos recursos, ainda.

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  21. Dorival Rodrigues

    Interessante, que nenhum comentário toca nas questões das demandas brasileiras. Os países desenvolvidos e muitos deles foram ou ainda são colonialistas, já não tem mais demandas de infraestruturas. Tudo ou quase tudo já está pronto, ao contrário do Brasil que só nos últimos anos retomou os investimentos em infraestrutura. Não tinha portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, hidrovias, saneamento, pontes, estruturas urbanas, energia, estruturas físicas para educação, saúde e segurança, cultura, etc. No Brasil os recursos precisam ser gastos nestas demandas, que os países desenvolvidos não tem, e se tem, são muito menores. Por isto, não tem como exigir serviços de primeiro mundo com carga tributária de terceiro. É preciso ainda considerar que a sonegação é altíssima. Em 2013 foi de mais de 10% do PIB, Portanto, a carga tributária de 35,9 % não é real.

    • João Mezzomo

      Dorival, a carga tributária é calculada pelo valor efetivamente arrecadado em tributos, por isso ela é real. Por exemplo, o total arrecadado em 2013 foi de 1,7 trilhões para um PIB de 4,8 trilhões, aproximadamente. Sobre a infraestrutura, você tem toda a razão, só que estamos fazendo num ritmo muito lento. O que perdemos por falta de estradas, ferrovias, metrôs, pavimentação, esgoto, escolas e transporte coletivo de qualidade, é um absurdo. Os países que fizeram tal infra, fizeram com recursos de impostos, ou fazendo dívida pública. Depois que ela se tornou imensa, a inflação decorrente disso comeu a dívida para o prejuízo dos rentistas (poupadores). Mas aqui até isso é difícil de fazer, pois o brasileiro poupa pouco, prefere imobilizar, nossa poupança é em grande medida de fora, um capital muitíssimo volátil. Tem de arrecadar mais impostos, é o único caminho.

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  24. Striker

    Muito bom. Parabéns.

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