Mitos Econômicos Brasileiros #4: “2014 será o ano da ‘tempestade perfeita’ no Brasil”

Apesar das profecias apocalípticas, indicadores de vulnerabilidade contra choques externos mostram que fundamentos macroeconômicos do país nunca estiveram tão sólidos

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Nos últimos meses, os analistas econômicos vêm batendo na tecla de que uma hecatombe, ou melhor, uma “tempestade perfeita” vai atingir o país em 2014 – especialmente se a oposição, qualquer que seja ela, não ganhar as eleições gerais de outubro. O conceito, lançado pelo ex-ministro da Fazenda e economista Antonio Delfim Netto, supostamente próximo ao governo, rapidamente caiu no gosto de seus pares de orientação mais neoliberal e, claro, dos jornalistas que reverberam suas opiniões. A inspiração anglófona da expressão (“perfect storm”) certamente ajudou no marketing. A tempestade que traria um desastre econômico sem paralelos na história seria causado por uma conjunção de fatores: fim das medidas de estímulo (expansionismo monetário) dos EUA, que resultaria uma grande desvalorização, que por sua vez geraria pressões inflacionárias, tudo isso aliado a uma deterioração das contas externas e a uma forte desconfiança em relação à política fiscal. Fujam para as colinas!

Mas faltou combinar com São Pedro. Olhando mais friamente, não se percebe na “tese” da tempestade perfeita nenhum vestígio de análise rigorosa, baseada em fatos. Trata-se de um exercício livre de futurologia, no qual são traçados nexos causais com base em pressupostos puramente especulativos.

Quando a tempestade encontra a frieza dos dados econômicos, ela vira uma garoazinha, ou no máximo uma chuva de verão, daquelas que enganam aqueles que não conhecem muito a realidade local.

Ontem, dia 8, o Banco Central divulgou o último balanço das reservas internacionais. Reservas que, entre 1998 e 1999, derreteram à metade (ficando quase sempre no patamar de US$ 30 bilhões até 2002), deixaram o país extremamente vulnerável a choques externos e internos – que vieram, três vezes –, forçando o país a buscar socorro no FMI e a se sujeitar às determinações do Fundo.

Pois bem, as reservas internacionais Brasileiras fecharam 2013 em US$ 375,8 bilhões, quase 10 vezes mais que em 2002. O número praticamente mantém o patamar de 2012, quando elas alcançaram valor recorde de US$ 378,6 bilhões – leve queda de 0,7%, irrisória perto da alta base de comparação.

Isso já seria um indicador para debelar qualquer “zica” trazidas pelos mensageiros do apocalipse. Mas não pode ser levado em conta sozinho. Uma análise econômica minimamente razoável, mesmo a de um blog, precisa levar em conta outros indicadores para determinar o quão vulnerável está o país.

O economista francês Pierre Salama sugere em um artigo (2010) três lentes de comparação. Vamos a elas:

1) Necessidade de Financiamento Externo(NFE)/PIB

O conceito de NFE é definida por Salama pela soma do saldo das transações correntes do Balanço de Pagamentos (BdP) com os recursos usados para pagar a amortização da dívida externa, dividido pelo PIB. A princípio, quando mais baixa for esta relação, melhor. Usando informações dos Orçamentos da União e do BdP temos o seguinte resultado (clique para ampliar):

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Observamos que, segundo este primeiro indicador, a partir de 1996, o número do indicador cresceu, isto é, o país se tornou cada vez mais vulnerável. A necessidade de financiamento externo chegou a 6,16% do PIB em 2001. A explicação está nos elevados déficits no saldo das transações correntes da BdP.

As coisas começaram a melhorar de maneira mais consistente só depois de 2004. Em 2012, o indicador fechou em 3,6%. Resumo da ópera: por esse indicador, o Brasil está menos vulnerável agora do que no início da década passada (isso apesar de crescentes déficits nas transações correntes).

2) Reservas internacionais

A segunda linha de indicadores proposta por Salama consiste em calcular as reservas internacionais como porcentagem de quatro variáveis: PIB; importações; dívida externa bruta; e serviço dessa dívida. Quanto mais alta for essa relação, melhor.

2.1) Reservas/PIB. O primeiro sub-indicador de reservas internacionais mostra que nos seis anos entre 1995 e 2000, a tendência era de estagnação em níveis baixos ou leve queda, isto é, a situação era de grande vulnerabilidade, com tendência a piorar. Depois, apesar da leve recuperação em 2001 a 2003, a situação só melhorou de maneira consistente depois de 2005. Naquele ano, o nível das reservas era de 6,1% do PIB. Passou para 13,19% do PIB em 2007, até chegar em 16,8% do PIB em 2012. Resumo da ópera: por esse indicador, o Brasil está menos vulnerável agora do que no início da década passada.

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2.2) Reservas/importações. A partir do Plano Real, voltamos a ser grandes importadores. O que não é ruim em si: importações de máquinas e equipamentos podem melhorar a produtividade da economia local no médio/longo prazo; e a importação de bens de consumo aumentam o bem-estar da população. Importar muito, pois, pode até ser bom. Com tanto que você também exporte muito ou tenha recursos para “financiar” esse comércio com o resto do mundo.

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Assim, o segundo indicador mostra que, apesar de estar importando muito, as reservas estão acompanhando o ritmo deste crescimento: as reservas representaram 169% das importações em 2012. Uma bela melhora em relação ao início da década passada, quando, em 2000, as reservas cobriam só pouco mais da metade das importações. De fato, entre 1993 e 2000, o indicador foi piorando sistematicamente, caindo de 127,5% para 59% das importações. Resumo da ópera: por esse indicador, o Brasil está menos vulnerável agora do que no início da década passada.

2.3) Reservas/DEB. O terceiro indicador se refere às reservas internacionais como porcentagem da dívida externa bruta (DEB). Apesar de não termos mais uma dívida externa líquida, ainda temos uma dívida externa bruta (isto é, temos mais o que receber do exterior do que a pagar).

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Aqui, a série histórica disponível é mais curta (2002-2013), mas já dá uma boa ideia. A tendência quase contínua é de melhora: as reservas, que em 2002, representavam apenas 17,85% de nossa dívida externa bruta, em 2013 passaram para 120,8% da DEB. Resumo da ópera: por esse indicador, o Brasil está menos vulnerável agora do que no início da década passada.

2.4) Reservas/juros da dívida externa. Por fim, o último indicador de reserva (e penúltimo deste post, eu prometo) é a relação das reservas com os juros da dívida externa. Aqui, de novo, a série que tenho vai só de 2002 a 2013, mas para o propósito deste texto é o suficiente. E também já dá para imaginar o que acontece aqui: no início da década passada, em 2002, as reservas não eram suficientes para “cobrir” os juros da dívida externa, e representavam 97,5% do montante. A partir daí, novamente, o indicador melhorou continuamente até atingir 376,3% dos juros da dívida externa bruta. Resumo da ópera…

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3) Passivo externo/PIB

Um indicador chave é a chamada “posição internacional de investimento”, no qual estão incluídos “passivos” e “ativos” externos. O passivo externo é o nome dado à soma do investimento que estrangeiros fizeram no país e que estão atualmente aqui (é uma medida de estoque). Já o ativo externo é a soma dos investimentos feitos lá fora por brasileiros. Só a título de curiosidade, o passivo externo líquido é o valor do passivo externo (bruto) descontado o ativo externo (bruto).

O indicador é construído dividindo o passivo externo bruto (PEB) pelo PIB. Este é o único indicador em que o país não melhorou, pelo menos na série histórica disponível (2002-2013). Mas também não piorou. Em 2002, o PEB representava 68% do PIB. Em 2012, depois de altos e baixos, o indicador era de 69%.

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Só que aqui tem um detalhe: nem todo investimento estrangeiro é igual. Existem os chamados investimentos “produtivos”, em ativos físicos (os investimentos estrangeiros diretos) e financeiros, como o mercado de títulos públicos e de ações, além de empréstimos a juros. Para entender se o Brasil está mais ou menos vulnerável, é preciso ver sua composição:

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O resultado da análise da composição do “passivo externo” não é tão preto-no-branco como nos outros indicadores: por um lado, o investimento estrangeiro direto aumentou sua proporção: em 2001, representavam 29,5% do total do estoque de investimentos vindos de fora. Em 2012, essa proporção foi para 47,7%. Isto é, aos poucos, ao longo da década, o país foi mudando seu perfil de inserção internacional, passando de um oásis financeiro (como se queria nos anos 1990), para um local privilegiado para investimentos produtivos.

Já os chamados investimentos em carteira aumentaram sua participação até 2007 (chegando a 55,5%), para perder gradualmente terreno e voltar ao patamar semelhante ao de 2002, representando, em 2012, 39,4% do total de investimentos.

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Somando os investimentos em carteira, investimentos estrangeiros em derivativos e outras modalidades (em especial empréstimos), vemos que há uma tendência a redução da “financeirização” do perfil do investimento de fora: os investimentos em modalidades financeiras representavam 70% do passivo externo em 2002. Essa proporção foi caindo de maneira lenta, mas consistente, até chegar em 52,3% do total do estoque de investimento estrangeiro no país em 2012. Isto é, a “fotografia” mostra que o investimento financeiro ainda é preponderante no país, mas o “filme” mostra uma tendência de mudança em favor de investimentos em ativos físicos (produção).

O problema de uma inserção “financeirizada”, como vinha sendo nos anos 1990, é que esse capital é muito mais “volátil” que o capital produtivo. Ao menor rumor de “tempestade”, esses investidores podem, teoricamente, se desfazer rapidamente de seus ativos financeiros brasileiros. É como um castelo de cartas num vendaval. Isso é mais difícil se uma multinacional abre uma fábrica no país. Mas mesmo em se tratando de investimentos financeiros, especialistas dizem não ser recomendável tirar ou pôr dinheiro ao sabor do noticiário diário, já que investimentos em ações e em títulos da dívida dão maior rentabilidade a longo prazo.

Por isso é bom ver quão vulnerável o país está, antes de alardear o Juízo Final. Afinal, tempestades são fenômenos naturais, mas se você estiver em um abrigo sólido, ela passa e a vida segue. A tempestade perfeita já atingiu o Brasil – e por três vezes -, só que foi entre 1998 e 2002, quando nossas bases econômicas eram frágeis. Mas, hoje, quem cair no conto da tempestade vai perder.

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8 Comentários

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8 Respostas para “Mitos Econômicos Brasileiros #4: “2014 será o ano da ‘tempestade perfeita’ no Brasil”

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  7. Parabéns, bom método e excelente continuidade no texto.

  8. Zeca

    Só faltou explicar que essa melhora se deveu à elevação dos preços das commodities. O minério de ferro na era FHC era 12,42 dólares e no Governo Lula chegou a passar de 180 doláres a tonelada métrica. O autor também omite que as taxas de juros externas no governo FHC eram de 5% ou 6% e agora beiram a zero. E se não há problema de vulnerabilidade externa, por que há operações de swap do BACEN beirando os 100 bi de doletas???? Por que o governo não deixa o câmbio flutuar?

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