Políticas de combate ao crack em SP mostram a diferença entre direita e esquerda

Dizem por aí que não existe mais direita e esquerda; que político é tudo igual.

Porém, quando se analisa o caso das políticas de combate ao crack em São Paulo, vemos que esse tipo de chavão não se baseia na realidade concreta e só traz despolitização e um certo cinismo cético ao debate. O desenho de cada política em si já é moldado a partir de certas concepções de cidade e de democracia. Olhando de perto, vemos que a distinção entre direita e esquerda segue sendo atual.

Esquerda e direita no combate ao crack: quanta diferença

Esquerda e direita no combate ao crack: quanta diferença

Operações na “Cracolândia”

Basta uma rápida busca no YouTube usando os termos “operação” e “cracolândia” para perceber que essas intervenções públicas de repressão não são novidade na chamada “Cracolândia” (apelido carinhoso dado a uma região do bairro de Campos Elísios, no centro de São Paulo, notória pela grande quantidade de consumidores de droga e traficantes de crack em suas ruas).

Comecemos pelo final: nesta semana foi lançado pela Prefeitura um programa de combate ao crack no centro da cidade, chamado “Braços Abertos”. Liderado pela Secretaria de Desenvolvimento Social, o programa começou de fato há cerca de seis meses, com um trabalho feito junto com usuários de droga de uma das “sub-regiões” da Cracolândia. Naquela etapa, foi feito um cadastramento e um diálogo com os usuários de droga, para ouvi-los e convencê-los a aderir ao programa.

A política articula o combate ao crack com políticas de assistência social, saúde e de geração de emprego e renda: quem aderir ao “Braços Abertos”, primeiramente terá de se cadastrar e sair da “favelinha”. Em troca, terá uma vaga em um dos hotéis sociais da Prefeitura. Além disso, recebera três refeições diárias e acesso a tratamento médico.

Como contrapartida, o beneficiário terá de participar de um programa de qualificação profissional de 2 horas diárias de duração e terá de trabalhar por 4 horas por dia para a Prefeitura em serviços de zeladoria (como limpeza de espaços públicos, coleta de lixo e de material reciclável etc.). Em troca, receberá, ainda, R$ 15 por dia trabalhado.

A partir daí, cabe ao usuário decidir se quer ou não ter acesso a tratamento de desintoxicação. Primeiro vem a dignidade, depois o tratamento contra a dependência. Como é possível ver no vídeo abaixo, a operação ocorreu sem sobressaltos:

A ação pode funcionar ou não. Mas já é uma política diferente, na forma e no conteúdo, em relação às políticas anteriores, muito mais baseadas na repressão e no tratamento forçado. Ouça a análise do professor da Unifesp, dr. Dartiu Xavier da Silveira em entrevista à rádio CBN:

O modelo “coercitivo” de que fala o dr. Silveira tem sido adotado na cidade pelo menos desde 2008. A prefeitura, ainda sob a gestão do então prefeito Gilberto Kassab, e/ou o Estado, comandado pelo então governador José Serra, vem deflagrando ações pirotécnicas a cada ano, sempre capitaneadas pela polícia, nas quais centenas de usuários são detidos para interrogatório, alguns pequenos traficantes são presos e vários cachimbos e quilos de pedra de crack são apreendidos.

Além do viés explícito de tratar a cracolândia principalmente como “caso de polícia”, essa política foi marcada pela falta de coordenação crônica entre as esferas de governo. A operação deflagrada por Serra, em 2010 (ano em que se candidataria à presidência), for particularmente tragicômica.

Image

Durante a operação, feita sem a devida coordenação e conduzida apenas pela PM, centenas de consumidores de droga foram levados à força para um centro de tratamento, que por sua vez não estava apto a receber aquela quantidade de pacientes. Resultado: os usuários fugiram e voltaram às ruas, e aos poucos tudo voltou ao normal. Até mesmo seu aliado e cria política, Gilberto Kassab, criticou Serra por conta da operação desastrada. Veja o vídeo aqui o vídeo feito pelo UOL, em 25/01/2010.

A falta de coordenação e truculência continuaram por sua vez com a dupla Kassab-Alckmin.  A grande operação foi deflagrada pela dupla janeiro de 2012. Segundo o Estadão, quando a ação foi iniciada, nem Alckmin, nem Kassab, nem o comando da PM sabiam que a operação, que estava sendo planejada por eles meses antes, seria executada naquele dia. Esse “detalhe” teve implicações: a operação começou antes de o centro de tratamento Prestes (no Pari, região central da cidade) ter sido concluído.

Como se não bastasse a falta de coordenação, a Operação Cracolândia foi extremamente truculenta, com a PM usando bombas e balas de borracha contra os usuários de droga, como se pode ver neste vídeo da TV Folha:

Não por acaso, a ação foi apelidada de “Operação Sufoco”.  A ênfase era na repressão.

O resultado dessa inteligente política foi o espraiamento da cracolândia pelo bairro e para outros bairros. Um ano depois dessa operação, nada mudou.

Ou melhor, mudou, sim. Dois anos antes, operação nova Luz começava a todo vapor. Em abril de 2010, a antiga Estação Rodoviária de São Paulo foi demolida. Segundo o Estadão, a rodoviária desativada atraia criminalidade, mas sua demolição iria começar a mudar o bairro da Luz … para pior. Uma “favelinha” foi sendo erguida no descampado deixado pós-demolição. Abandonado entre 2010 e 2013, o local começou a servir de morada (precária) de usuários de droga pelo menos desde o fim do ano passado.

Em resumo, temos aí duas formas claras e distintas de ver e agir sobre um mesmo problema. De um lado, a “Operação Sufoco”, de outra a “Operação Braços Abertos”.  Não é por acaso que uma política (baseada nas forças da lei e da ordem) e a outra (baseada em promoção da dignidade e inserção) coincidem com administrações de direita e de esquerda.

A história não acabou. Olhando com atenção, vemos que ainda há em disputa projetos diferentes de cidade, de país, de sociedade. E que as categorias direita e esquerda continuam úteis para entender estes projetos.

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