Mitos Econômicos Brasileiros #5: “No governo FHC, a inflação esteve sob controle, mas, depois, ela disparou”

O mito econômico da vez no Brasil é o de que nunca antes na história do Plano Real a inflação esteve tão perto de sair do controle (ou que a hiperinflação voltou, obrigando até as pessoas a fazem “compras de mês”. A premissa implícita da narrativa é a de que antes dos governos trabalhistas havia “estabilidade” macroeconômica mantida com muito sacrifício, disciplina e responsabilidade.

Mas fatos não corroboram o mito, que se baseia na confusão entre “fim da hiperinflação” com “estabilidade”.

O grande logro do governo FHC foi a derrota definitiva da hiperinflação (além de ter dado credibilidade à moeda nacional). Essa foi a grande marca do 1º mandato do presidente tucano e lhe valeu a reeleição. O período 1980-1994 foi caracterizado por taxas de inflação anuais, quase sempre na casa dos três dígitos. O último ano do presidente Sarney, 1989, a inflação chegou a 1.972%. Em 1993, já com o presidente Itamar, o IPCA bateu recorde: 2.477%. No ano seguinte, quando o Plano Real foi lançado no 2º semestre, a taxa caiu drasticamente, para 916%.

A receita para lograr tamanho feito, ao contrário do que se pensa, foi amarga, à base de juros altos (taxas de juros básicos sempre acima de 19%), privatizações, liberalização comercial, desemprego, arroxo salarial, e liberalização dos fluxos de capital. Esses custos, no entanto, foram relegados a notas de rodapé da história, diante do sucesso do plano contra a hiperinflação.

Porém, o modelo deu sinais de esgotamento e deixou evidente a sua grande vulnerabilidade a partir de 1998, no último ano do 1º mandato, a partir das sucessivas crises financeiras internacionais que finalmente atingiram o país naquele ano. Dali em diante, a economia do país inaugurou um longo período de INSTABILIDADE que só terminou em 2004.

Dessa história complexa, a narrativa que ficou foi a de que o governo tucano trouxe “estabilidade”, e que a inflação teria sido controlada durante esse período. Não foi.

A partir de 1999, e meio a uma grave crise econômica, já no segundo mandato de FHC, quando a hiperinflação já tinha sido derrotada, foi instituída a política de metas de inflação – que permanece até hoje. A mudança foi turbulenta: o IPCA apresentou elevação considerável e grande volatilidade: a meta foi estourada por três anos seguidos (2001, 2002 e 2003), com tendência de aceleração ano a ano.

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A inflação, portanto, nunca esteve de fato “sob controle” durante o governo FHC.

Os críticos falam que o modelo (o tal “tripé” meta de inflação/câmbio flutuante/superávits primários) foi abandonado ou que tem sido “deturpado” sistematicamente durante o governo Lula e especialmente durante o governo Dilma.

É possível ver no gráfico abaixo que a inflação, no segundo mandato de FHC, foi muito mais elevada que nos períodos seguintes (é importante lembrar que em 1997 e 1998 a inflação já estava abaixo de 6%, então não cola aqui a desculpa da “herança” dos tempos de hiperinflação). De fato, a inflação só ficou sob controle a partir de 2004, tendendo a se estabilizar no curto prazo em torno de 5,5%, acima da meta, mas abaixo do limite. Antes disso (entre 1999 e 2003), porém, a tendência era de inflação crescente.

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Em média, a taxa anual de inflação entre 1999 a 2002 foi de 8,78%. Mas, para os analistas econômicos,  o perigo da volta da inflação veio mesmo durante os mandatos “irresponsáveis” posteriores: no primeiro mandato de Lula (2003-2006), quando a média anual do IPCA foi de 6,43%; depois em seu segundo mandato (2007-2010), quando a inflação anual foi de 5,15%. Ou seja, em oito anos de Lula, a inflação em média foi de 5,79% ao ano.

Agora o alvo da vez é Dilma, que, até agora, em seus três primeiros anos de mandato, entregou uma taxa de inflação anual média de 6% (até novembro). Se cada ponto percentual a mais pode significar um aumento da chance de a hiperinflação voltar, o período em que a hiperinflação esteve mais perto de voltar foi entre 1999 e 2002 e não agora.

Muito terrorismo barulho é feito quando a meta do ano “estoura” durante algum período do ano, no acumulado de 12 meses (como aconteceu em março em junho do ano passado), embora por 10 anos seguidos (desde 2004) o índice tivesse ficado sempre dentro do limite da meta.

Metas de inflação - corrigida

Durante os quatro anos do segundo mandato “responsável” de FHC, a meta foi cumprida apenas uma vez, em 2000. O índice ficou dentro do limite por em 1999. E ESTOUROU por dois anos seguidos (2001 e 2002). Como herança para seu sucessor, FHC deixou uma inflação em dois dígitos (12,53%) em seu último ano.

Sob Lula, a meta de inflação só estourou em seu primeiro ano de mandato (2003). A meta foi cumprida por três vezes (2006, 2007 e 2009) e ficou dentro do limite nos quatro anos restantes (2004, 2005, 2008 e 2010).

Durante a gestão Dilma, a meta para o IPCA ficou dentro do limite da meta em cada um de seus três anos de mandato(2011-2013). Em em nenhum ano meta foi cumprida, mas também em nenhum ano ela estourou o limite. Em resumo: se o “tripé” da política econômico alguma vez foi  ameaçado, ao longo da história do regime de metas, entre 2001 e 2003.

Mas existe uma vítima maior que  Lula, Dilma ou o PT. O ministro da Fazenda, Guido Mantega. Considerado como incompetente pelos críticos, nativos e estrangeiros, o ministro é um injustiçado (pese seus erros e algumas trapalhadas). Não se fala de seu papel na recuperação de 2010, mas sobretudo há uma tendência de ignorar (ou deturpar) os fatos no que tange a seu “legado” no campo da inflação.

Em comparação com seus antecessores, Mantega não faz feio. De fato, foi quando esteve à frente do ministério da Fazenda que o país mais cumpriu as metas de inflação (3 vezes). Sob Mantega, a meta jamais foi estourada, e o IPCA anual médio foi o menor entre dos três ministros da “era do tripé” (5,23%, contra 7,53% de Palocci e 8,78% de Malan).

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Se fosse um campeonato (como às vezes é tratado pelo jornalismo econômico), o ministro seria “o campeão” das metas de inflação. Claro que não é o ministro da economia que faz todo o trabalho: tem o presidente do Banco Central, o próprio presidente da República, toda uma equipe econômica. Mas quem está na berlinda, para o bem ou para o mal, é o ministro da Fazenda. É, por assim dizer, o “capitão” da economia. Nada mais justo, então, colocá-lo no alto do pódio desse “campeonato”.

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55 Comentários

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55 Respostas para “Mitos Econômicos Brasileiros #5: “No governo FHC, a inflação esteve sob controle, mas, depois, ela disparou”

  1. Tens pensado em escrever algum mito sobre a relação entre crescimento do Brasil no governo Lula e o crescimento mundial no mesmo período?

  2. Mauricio

    Cyrus.
    Apenas para não deixar espaço para críticas futuras sugiro que no gráfico acima seja acrescido a sinalização gráfica de “meta cumprida” ao ano 2000 (inflação de 5.97%).
    Att. Mauricio

    • Caro Maurício, muito obrigado por me comunicar sobre o erro no gráfico. De fato faltava a “estrelinha” no ano 2000. O erro já foi corrigido. A estrelinha estava no arquivo de Power Point, mas não estava salvo na imagem (não estava agrupado). Acabei não reparando quando subi. Peço desculpas.
      Apenas para esclarecer aos demais, o texto estava correto e falava claramente que a meta foi cumprida no ano 2000, assim como a “estrelinha” de Malan constava na arte do “pódio”.

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  6. antonio

    Acabei de ficar com vergonha das vezes que ouvi alguem falar que o governo atual PT está deixando a hiperinflação voltar e fiquei quieto.
    É incrível como pessoas falam qualquer coisa só para criticar o Lula.

    Só pode ser inveja…

  7. Fernando Santos

    Gostei muito do seu blog, e a série dos mitos da economia brasileira são muito interessantes.

    Parabéns por esse trabalho tão bem feito…

    • Muito obrigado pelo comentário, Fernando. Coloco muito trabalho (no meu tempo livre) neste blog para poder contribuir para os debates com outros pontos de vista (ou com pontos de vista que têm menos visibilidade). Fico muito contente com seu feedback, e espero poder continuar correspondendo nas próximas publicações. Abraços!

      • Alex Santos

        Parabéns pelo artigo! É simples mas objetivo na análise. Realmente o tema do controle da inflação é um mito da economia brasileira. Sou estudante de Economia, sua análise está certa, o governo Lula resultou melhor do que o governo FHC quanto à inflação. Discordo, porém, de seu elogio ao Ministro Mantega: de fato o “tripé” meta de inflação/câmbio flutuante/superávits primários foi mantido por Lula/Mantega, porém de uma maneira demasiado conservadora, uma das razões para a perda de competitividade da Indústria brasileira, a qual vive “às minguas” em meio à crônica insuficiência de investimentos produtivos, atrasando o desenvolvimento nacional (para mencionar apenas uma das variáveis do problema). O controle da inflação é necessário em todas as economias do mundo, porém não pode ser praticada da maneira como tem sido, desde FHC. É o mesmo que um doente com infecção se drogar demasiadamente com antibióticos: você cura momentaneamente a infecção, mas ganha uma úlcera (ou problemas piores). Toda a atual política macroeconômica, portanto, precisa ser revista (veja-se, por exemplo, os excelentes artigos dos economistas Luiz Filgueiras, João Paulo Magalhães, Miguel Bruno e outros, compilados em “OS ANOS LULA – Contribuições para um balanço crítico 2003-2010. Garamund Editora: 2010”). É uma pena que nossos melhores economistas não estejam no governo, diferentemente do que acontece nos países mais bem sucedidos (EUA, Alemanha, Japão e Coréia do Sul, entre outros). Aproveitando a oportunidade, vale um comentário político, vale destacar que FHC-PSDB acertou com o plano Real, Lula-PT acertou com sua política social, mas ambos erraram muito nos detalhes macroeconômicos, e os detalhes fazem toda a diferença, no curto e no longo prazo. Já estamos a ver as consequências… Dilma demonstra ser uma lider política forte, porém demonstra também não saber como resolver os problemas econômicos atuais. Sinal de que precisa alterar o corpo de técnicos e economistas que com ela trabalham. Saudações. Alex Santos.

  8. Rodrigo

    Meu querido vc apenas esqueceu de mencionar que a inflacao de 2001 foi alta por causa dolar que chegou a rs4,00 por medo do lula. Tivemos um choque de oferta. O problema agora eh de confianca e expectativas de inflacao. Eh muito diferente!
    Privatizacao eh excelente! Afinal de contas vc tem hoje um celular nao tem? Agradeca a privatizacao meu caro!
    Mil perdoes mas suas explicacoes sao completamentamente viesadas e fundamentos economicos muito pobres.

    • Rodrigo, obrigado pelo comentário.

      Porém sou obrigado a discordar de quase tudo que você disse.

      1) Eu não “esqueci de mencionar que a inflação de 2001 foi alta por causa do dolar”. Simplesmente não era o objetivo do post analisar os motivos para a inflação de cada ano – mas, sim, mostrar com evidências fortes que a inflação não estava sob controle sob FHC. Como disse, o mérito de FHC foi ter derrotado a hiperinflação – e não a inflação, que seguiu alta e crescente no seu segundo mandato.

      2) O ano que você se refere – quando a inflação passou de 12% – foi o de 2002 e não 2001. Get your facts straight.

      3) Você precisa aprender a diferenciar causalidades: existem causas imediatas e causas últimas. A causa imediata é aquilo que está aparente, é o senso comum. Por exemplo, a causa primeira da 1ª Guerra Mundial foi o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando. Mas a causa última, mais profunda, foi uma disputa neocolonial entre potências europeias. As duas causas são verdadeiras, mas a mais importante é a causa última.
      Voltando para o caso da alta inflação sob FHC: o “fator Lula” é a causa imediata, aparente, a do senso comum. Mas a causa última foi a grande vulnerabilidade externa que o país esteve sob todo o Plano Real (até 2004). O Brasil enfrentou seguidas crises (1999, 2000 e 2002), sendo que a mais forte foi a de 1999. Como gostam de dizer os economistas que fazem análises “ricas” os fundamentos econômicos eram ruins. Se duvidar, veja por você mesmo o saldo das transações correntes até 1999 e verá que o modelo era insustentável e sujeito a todo tipo de perturbação (externa, como em 1999, ou interna, como em 2000). Ou seja, a causa ÚLTIMA da crise e da inflação de 2002 era a própria VULNERABILIDADE da economia brasileira.

      4) Em nenhum momento o texto faz qualquer juízo de valor sobre privatizações, apenas diz que fazia parte do modelo neoliberal do Plano Real. Primeiro, porque eu acredito que existe uma infinidade de modalidades de privatizações – algumas atividades funcionariam melhor se geridas pela iniciativa privada, outras atividades são melhores se geridas pelo poder público. E, mesmo as atividades, como a telefonia, que podem e devem ser privadas, um governo pode fazer um modelo positivo (bem regulado) ou negativo (mal regulado). A telefonia é um desses casos: o serviço é péssimo, é extremamente caro e bate recordes seguidos de reclamação nos órgãos de defesa do consumidor. Então, sim, todos têm telefone em casa hoje. Mas, não, o processo de privatizações está longe de ter sido um sucesso. Resumo da ópera: privatização não é boa nem ruim por si só: é preciso analisar a privatização em seu contexto.

      5) Você está perdoado. Mas este blog não tem a mínima pretensão de ser imparcial ou neutro. Aliás, se você acredita que algum texto analítico de política ou economia pode ser imparcial, melhor voltar ao colégio. E, viu, minhas explicações são ENviesadas, mesmo, e, se você chama de fundamento econômico “rico” aquilo que você lê nos jornais ou ouve nas rodinhas de economistas, eu tomo como elogio você chamar minhas análises de “muito pobres”. Então, obrigado!

      • Robson de Souza

        Creio que nesta frase: “A receita para lograr tamanho feito, ao contrário do que se pensa, foi amarga, à base de juros altos (taxas de juros básicos sempre acima de 19%), privatizações…”, Voce afirma que a privatização é um aspecto negativo.

        “o processo de privatizações está longe de ter sido um sucesso”

        Me aponte um caso de fracasso?

      • Olá, Robson. Obrigado pelo comentário.
        Bom, é importante esclarecer o que eu quis dizer: não quis atacar as privatizações nem defender estatizações. Meu argumento foi justamente dizer que é preciso avaliar a política de privatizações com menos dogmas e de uma maneira mais consistente, levando em conta uma diversidade de fatores e não apenas fazer uma divisão binária entre “fracasso” e “sucesso” (como sua pergunta quer que se faça).

        Primeiro, porque é preciso entender que a noção de “fracasso” e “sucesso” não são absolutas. A privatização de uma empresa pode ter sido um sucesso para um grupo econômico e ruim para outro. Pode ter gerado consequências boas ou ruins no curto prazo e o oposto no longo prazo.

        Pode-se argumentar que a privatização da Embraer foi um sucesso porque, apesar de vender um patrimônio, o Estado obteve mais benefícios depois da venda do que teria se ainda a mantivesse sob controle estatal (e não falo apenas da receita com a venda, mas, sobretudo, das exportações de produtos de alta tecnologia, investimento em P&D, impostos, trabalhos qualificados etc.). A empresa não é “estratégica” e não teria uma razão para ser controlada pelo Estado. Levando em conta uma série de argumentos (mas sem uma análise profunda), diria que a privatização foi um “sucesso”.

        Já a privatização das ferrovias foi um fracasso (acho que isso responde à sua pergunta-desafio). O Estado abandonou essa área estratégica (transporte ferroviário), conduzindo um processo mal regulado de privatização que levou ao abandono e sucateamento das linhas não lucrativas. Isso acontece quando há lei de mercado (lucro) prevalece sobre o interesse nacional (de integração). Não é algo inerente à privatização (poderiam ter feito concessões que impusesse contrapartidas etc. para investir e manter linhas não lucrativas, se quiserem explorar as linhas lucrativas, por exemplo). O abandono não necessariamente seria evitado se permanecessem estatais. Mas certamente o processo de destruição do setor foi acelerado pelo processo de privatização da maneira que foi feito. Vendeu-se barato e sucateou-se depois. Logo, um “fracasso” no curto e no longo prazo.

        Já a privatização da telefonia e da Vale do Rio Doce é mais complexo fazer a avaliação binária, mesmo se levarmos em conta o interesse nacional e diversos fatores, já que trouxeram benefícios (em especial, no curto prazo), mas trouxeram malefícios. Os serviços de telefonia foram rapidamente estendidos para a grande maioria da população, mas a qualidade piorou muito com a massificação e má regulação (são campeões de reclamação nos Procons). Também houve denúncias à época de que as empresas foram deliberadamente sucateadas com o objetivo de forçar a privatização. Também se contesta o baixo valor das compras e o fato de o governo usar o BNDES para financiar o processo (e não dinheiro “novo”).

        Algo parecido pode ser dito a respeito da Vale do Rio Doce, que foi vendida por um preço extremamente baixo, gerando lucros quase instantâneos para seus compradores e, no longo prazo, comprometeu a capacidade do Estado de determinar o que seria produzido (por exemplo, produtos pouco-acabados passaram a ter preferência aos produtos com mais valor agregado… o lucro imediato se sobrepôs às necessidades de longo prazo e do conjunto mais amplo da economia). Por outro lado, a mineradora cresceu muito e aumentou seu valor e faturamento. Mas será que não poderia ter crescido sem que o Estado se desfizesse de seu patrimônio?

        É esse o meu ponto: muitos fazem festa em torno da “eficiência” da privatização, mas fazem análises rasas dos custos e benefícios de cada processo. O mesmo se pode dizer dos detratores das privatizações. Meu ponto é que precisamos de um olhar mais complexo e capaz de ver as nuances do processo, e fugir do binarismo “sucesso-fracasso”.

      • Alex Santos

        Perfeito! Parabéns! Vc é economista?

      • Juliana Schneider Mesquita

        Cyrus Afshar você brilhou nessa resposta!

  9. Paul

    Inflação antes de FHC chegava a 700%, e vem dizer que ele não estabilizou a coisa? Queria ver o PT governar com 700% de inflação…

    • Olá, Raul. Obrigado pelo comentário.

      Como você deve ter lido no post, o texto diz que o Plano Real trouxe benefícios importantes. Os dois benefícios principais que cito foram a derrota definitiva da hiperinflação e ter dado credibilidade à moeda nacional. Isso está reconhecido. E, claro, outros benefícios econômicos decorrem de tais logros.

      Para começar a responder a sua pergunta, começo com uma correção: a inflação não estava em 700% em 1994. Estava em 916%. Isso está no texto. Em 1996 o IPCA já estava em um dígito, como você pode ver no gráfico. É um grande feito. Mas os dados mostram que a estabilidade econômica só chegou depois de 2004:

      1) A inflação no 2º mandato de FHC era crescente (9%, 6%, 7,6%, 12,5%). Lembremos que FHC foi reeleito como “o homem que DERROTOU a inflação vai derrotar o desemprego”. Ou seja, o feito da estabilização teria sido alcançado já no 1º mandato. Só que a inflação se manteve elevada (e crescente) em todo seu 2º mandato.

      2) Se os economistas consideram elevada a inflação dos últimos anos, que ficou em torno dos 6%, a inflação em torno de 9%, no 2º mandato de FHC é elevadíssima e crescente. É, pois, o contrário de estabilidade. E, como exposto no ponto (1), não se pode dar como desculpa o legado de hiperinflação, pois já estaria tudo “estabilizado” no mandato anterior.

      3) Estabilidade macroeconômica é entendida aqui como algo mais amplo. O Brasil sofreu efeitos das crises financeiras da Russia – que se tornou a “crise financeira do Brasil”, em 1999. Em 2000-2001, a crise foi de infraestrutura: apagão e racionamento. Em 2002-2003, a crise foi de confiança, motivada pelo “fator Lula”. As crises do 2º mandato foram decorrentes do “êxito” do 1º: o modelo dependia de uma liquidez internacional grande e permanente. Em última análise, as crises decorreram da grande vulnerabilidade na qual o país ficou exposto.

      4) Parte dessa grande fragilidade e INSTABILIDADE se refletia e era causada pelos grandes déficits na balança comercial e na conta de transações correntes. A política econômica do 2º mandato de FHC consistiu basicamente em corrigir essas fragilidades criadas no 1º mandato. Nos números, parece que, em termos de estabilidade de preços, o 1º mandato foi melhor (por trazer hiperinflação a um dígito). Mas, na verdade, foi o 2º mandato, apesar das crises e toda a INSTABILIDADE ter se dado nesse período (e no começo do 1º mandato de Lula).

      5) Uma das provas e consequências da INSTABILIDADE macroeconômica que o Brasil vivia foi o fato de o país ter apelado ao FMI não em uma mas por TRÊS ocasiões. A função do FMI é, justamente, a de ajudar países que estão passando por instabilidades financeiras profundas, mais conhecida como CRISE. No caso do Brasil, essa era a situação no fim de 1998, em 2001 e em 2002.

      5) A prova de que da estabilidade econômica veio só depois da era FHC foi o efeito da crise financeira internacional. Não foi uma crise qualquer, localizada, como a do Sudeste da Ásia ou da Rússia. Foi a maior crise internacional desde 1929. Mesmo nesse cenário, não houve pressão inflacionária, aumento do desemprego e recessão prolongada. Não, de fato, o PIB caiu menos que o das economias semelhantes (como a do México e Rússia), a meta de inflação de 2009 foi alcançada e o desemprego seguiu caindo. Os “fundamentos” estavam e estão sólidos (recomendo a leitura do post Mitos Econômicos Brasileiros #4). Ao contrário do período entre 1996 e 1999.

      • cassia

        Sou bastante leiga no assunto..mas o pouco q vejo sobre o assunto e q FHC conseguiu derrubar e muito a inflação e q claro as coisas não se resolvem da noite para o dia.
        Se o Lula conseguiu estabilizar a inflação foi graças ao FHC.
        Mas agora me responda se a inflação está menor pq as coisas estão cada vez mais cara.
        Cada vez q vou ao mercado tenho q deixar de levar algo ou pago mais caro?

    • Alex Santos

      O PT governaria no mínimo igual ao PSDB, visto que os economistas dos governos Lula-Dilma são da mesma escola neoliberal quanto os do precedente governo FHC. Agora me chama a atenção ver como os defensores tucanos buscam de todos os meios não reconhecer as conquistas do governo Lula. Não reconhecer conquistas históricas não é inteligente. Não sou partidário de nenhum dos dois partidos, principalmente depois de ver o PT praticar uma política econômica igual ao do precedente governo tucano. Sou adepto do republicanismo trabalhista, independente e apartidário (aliás, defendo a liberdade de candidatura eleitoral livre de partidos). Meu sonho é ver o Brasil desenvolver-se sustentavelmente e no longo prazo, ver políticas econômicas equilibradas e sociais, que cumpram o papel de um democrata de Bem Estar Social. Enfim, aprendam os críticos a reconhecer as poucas porém valiosas conquistas de Lula, assim como o primeiro mandato de FHC teve também suas escassas conquistas, embora no balanço final ambos os governos ficaram abaixo da média histórica de sucesso presidencial (conferir estudo relevantíssimo de Reinaldo Gonçalves: DESEMPENHO MACROECONÔMICO EM PERSPECTIVA HISTÓRICA: GOVERNO LULA). Adiantando o resultado deste estudo, dentre os 29 presidentes da república do Brasil (excluída a atual presidenta Dilma), Lula ficou apenas na 23o posição, e FHC, na vergonhosa 28o posição! Não é opinião, não é vontade, são dados, fatos históricos, análise científica atestando. Link do artigo: http://www.ie.ufrj.br/hpp/intranet/pdfs/goncalves_2010_otim.pdf

      Uma ótima tarde a todos! Boa sorte para o Brasil!

  10. Edivan

    Gostaria de deixar um elogio às suas ponderações, vivi essa situação de inflação na pele e concordo plenamente com você, pena que as pessoas tem memória curta. Com relação as privatizações, no Brasil elas só beneficiaram as campanhas dos tucanos, agora convivemos com empresas que prestam um péssimo serviço e cobram valores absurdos, fora a qualidade dos empregos oferecidos, será que foi tão bom assim?

  11. Ademar V. Medeiros

    Obrigado por publicar artigo bem elaborado. Essa matéria é difícil e sem atrativos hehe .Virei leitor Twitter@seoade

  12. Thiago

    Pena que ignorou a inflação de 95…

  13. Alex Santos

    Parabéns pelo artigo! É simples mas objetivo na análise. Realmente o tema do controle da inflação é um mito da economia brasileira. Sou estudante de Economia, sua análise está certa, o governo Lula resultou melhor do que o governo FHC quanto à inflação. Discordo, porém, de seu elogio ao Ministro Mantega: de fato o “tripé” meta de inflação/câmbio flutuante/superávits primários foi mantido por Lula/Mantega, porém de uma maneira demasiado conservadora, uma das razões para a perda de competitividade da Indústria brasileira, a qual vive “às minguas” em meio à crônica insuficiência de investimentos produtivos, atrasando o desenvolvimento nacional (para mencionar apenas uma das variáveis do problema). O controle da inflação é necessário em todas as economias do mundo, porém não pode ser praticada da maneira como tem sido, desde FHC. É o mesmo que um doente com infecção se drogar demasiadamente com antibióticos: você cura momentaneamente a infecção, mas ganha uma úlcera (ou problemas piores). Toda a atual política macroeconômica, portanto, precisa ser revista (veja-se, por exemplo, os excelentes artigos dos economistas Luiz Filgueiras, João Paulo Magalhães, Miguel Bruno e outros, compilados em “OS ANOS LULA – Contribuições para um balanço crítico 2003-2010. Garamund Editora: 2010”). É uma pena que nossos melhores economistas não estejam no governo, diferentemente do que acontece nos países mais bem sucedidos (EUA, Alemanha, Japão e Coréia do Sul, entre outros). Aproveitando a oportunidade, vale um comentário político, vale destacar que FHC-PSDB acertou com o plano Real, Lula-PT acertou com sua política social, mas ambos erraram muito nos detalhes macroeconômicos, e os detalhes fazem toda a diferença, no curto e no longo prazo. Já estamos a ver as consequências… Dilma demonstra ser uma lider política forte, porém demonstra também não saber como resolver os problemas econômicos atuais. Sinal de que precisa alterar o corpo de técnicos e economistas que com ela trabalham. Saudações. Alex Santos.

  14. Junia Ferreira

    ha uma diferença grande em tudo isso….Qdo o FHC entrou, a inflação beirava os 100% ao mês….ele teve o 10 mandato e parte do 20 para conter e estabilizar….ao passo q os petistas lula e dilma…ja pegaram a moeda estabilizada…..

    • Olá, Junia. Obrigado pelo comentário.

      Claro que a condição inicial de FHC foi bem pior do ponto de vista da inflação que Lula e Dilma. Isso foi tratado e reconhecido o mérito. Mas, em 1998, é bom lembrar, ele foi eleito sob o slogan “o homem que derrotou a inflação vai derrotar o desemprego”. Como se viu depois, a inflação não estava derrotada (embora, sim, ao HIPERinflação ficou no passado).

      Também não concordo q Lula “pegou a moeda estabilizada” (Dilma, sim). Um ano antes de Dilma assumir, houve uma crise financeira forte, o real chegou a R$ 4. A inflação acumulada chegou a 17% em março de 2003 (se não me engano).

      Assim, na minha opinião, não está correto dizer que FHC trouxe “estabilidade”. O que houve foram crises sucessivas (1999 crise financeira; 2000-2001 crise energética; 2002-2003 nova crise financeira). Isto é, o segundo mandato de FHC, que basicamente corrigiu os erros do primeiro, do ponto de vista econômico, foi marcado pela INstabilidade… e pelo aumento brutal do desemprego nas grandes metrópoles.

      O que eu discuto é menos o governo FHC e mais o tratamento que se dá HOJE ao governo Dilma na questão econômica. Se fala em “inflação fora de controle” quando a meta é estourada em 0,01 ponto, mas, no passado, se fala que inflação a 12,3% e dólar a R$ 4 é “estabilidade”.

      • André

        Também não concordo q Lula “pegou a moeda estabilizada” (Dilma, sim). Um ano antes de Dilma assumir, houve uma crise financeira forte, o real chegou a R$ 4. A inflação acumulada chegou a 17% em março de 2003 (se não me engano).

        Você disse um ano antes de Dilma assumir. É isso mesmo? Ou seria um ano antes de Lula assumir? E você disse que o real chegou à R$ 4. Rs, não seria o dólar chegou a R$ 4?

        Qual livro você indicaria para um completo leigo que deseja entender um pouco mais das políticas econômicas?

        Parabéns, pois na inexistência da imparcialidade, você consegue ser justo nas suas análises, sem fazer a tola oposição pela oposição.

  15. Andressa

    Nunca discuti politica e nem sei dizer como tudo funciona, então fiz questão de ler td aqui até mesmo para conhecimento e discordo de alguma coisas, como um comentário de que o PSDB não reconhece o que o governo do PT fez. Em debates presidenciais vi várias vezes o candidato Aécio ressaltar para própria Dilma os bons feitos do governo dela, inclusive o bolsa família, que não tem sido bem gerenciado, visto que há pessoas que não teriam direto ao mesmo e o recebem. Vejo são petistas não dando credito ao governo anterior, sendo que muito dos frutos colhidos, inclusive a inflação, do governo Lula veio de um série de medidas tomadas anteriormente. E sim, acredito que houve uma estabilização da inflação no governo do PSDB como exposto no próprio texto…. se em uma determinada época a inflação era de 916% e foi drasticamente para 9% e houve uma variação devido a fatores que ocorrem em todo o governo. Caso não haja estabilização no governo do PSDB como haveria agora? Já que aqui mesmo é relatado que foi extrapolada a meta do governo. A Dilma faz uma contabilidade criativa… pois se pegar os números eles não batem.. Li e reli o texto e não estou convencida a votar na Dilma, e olha que o texto em questão, como relatado, não é imparcial. Nota-se claramente a preferência do autor ao PT e ao que foi realizado pelo governo atual. E sim reconheço que o Lula fez muitas coisas, agora a Dilma vem deteriorando o Brasil a cada dia.

  16. Tiago C.

    Olá, Cyrus. Gostei do texto. Gostaria de saber de onde é o gráfico que você usou?

    Abraços

    • Olá, Tiago. Obrigado pelo comentário. Os gráficos são de elaboração própria, com base no dados extraídos do Ipeadata (ótima ferramenta que centraliza banco de dados), que, por sua vez, puxou os registros da base do IBGE.

  17. Pingback: O medo do retrocesso: Inflação - Academia Econômica

  18. Eduardo

    Caro autor, porque não faz o mesmo gráfico começando em 1996, segundo ano de governo do FHC ao invés de 1994. Algum motivo específico?
    Abs

  19. marcella barroso

    Amei esse blog, quanta riqueza de informações : )

  20. Alex

    Muito interessantes as suas considerações. Parabéns!

    Vc diz que o governo FHC acabou com a hiperinflação, mas não estabilizou a economia, o que pode ser facilmente compreendido a partir dos dados apresentados e de suas observações. No entanto, vc considera possível que um governo consiga em apenas 8 anos acabar com a inflação e ainda estabiliza-la? Com certeza vc conhece bem todos os efeitos danosos causados por uma hiperinflação e como é difícil acabar com ela e com seus efeitos a médio prazo. Vc não acha que todos os efeitos negativos da política econômica dos 8 anos de FHC infelizmente foram necessários em virtude da prioridade principal de acabar com superinflação? Vc acha que seria possível fazer políticas de inclusão social e fomento ao emprego ao mesmo tempo que se combatia a hiperinflação?
    Gostaria de saber sua opinião.

    Parabéns pelo site!

  21. Gustavo RJ

    Acho que valeria a pena ver o que está por detrás dos números de infação também… O atual governo vem segurando o preço da gasolina a um custo monstruoso e destruindo valor da maior empresa pública do país, a Petrobrás, para garantir as metas de inflação. Ah, a corrupção corre solta da Petrobrás também, e isso também ajudado! E além disso tem segurado tarifas públicas. E ao segurar o preço da gasolina destrói outras segmentos importantes (como o produtos de álcool combustível). Vale a pena comprometer 2015 em favor de 2014? Olhando os números podemos ver que a Dilma vai então entregar o governo com uma média maior do que quando recebeu? Foi isso que ela prometeu? Ou vocês acreditam que ela conseguirá chegar a média de 5,15% do último governo? Falta uma visão menos apaixonada e mais analítica!

  22. É bom ressaltar que a inflação de 12 % em 2002 foi devido às baixas expectativas quanto ao governo lula, ela subiu depois das eleições… Confira no link abaixo, ela estava em 5,51 % até agosto, mas quando começou a campanha e Lula estava bem nas pesquisas o mercado ficou instável, por outro lado, Lula “mudou de ideia” depois de assumir e o mercado voltou a confiar no governo..
    http://portaldefinancas.com/inpc_ibge.htm

  23. Gustavo Ramos

    Cyrus, parabéns pelo post, mas não posso deixar de observar que reduzir de 900 para 12 por cento é uma coisa e de 12 para 6 por cento é outra coisa completamente diferente. Isso sem falar que Lula só não adotou toda a cartilha neoliberal no seu governo (coisa que nem existe de fato) porque FHC já havia privatizado tudo o que tinha para privatizar. É muito fácil ser engenheiro de obra pronta. Naquela ocasião FHC foi eleito por um acaso fabuloso. Lula já estava certo de que seria o próximo presidente da república visto que era o antagonista natural de Collor e uma vez que naquela época ninguém tinha pistas do seu caráter. Ele teria se saído melhor que FHC? O Brasil estaria melhor se ao invés de 8 anos de PSDB e 12 de PT estivéssemos amargando 20 anos ininterruptos de PT?

  24. Vitor

    Olá, Cyrus. Primeiramente, parabéns pelo texto! Muito legal, aprendi muita coisa aqui. Gostaria de lhe perguntar algo que está pouco relacionado com o texto. Economistas dizem que o aumento do salário mínimo e a expansão de crédito reduziu a desigualdade. No entanto, outros dizem que com a queda da produtividade nacional, o aumento do salário vai aumentar a inflação, fazendo com que, na prática, um salário maior não compre muitas mais coisas, já que tudo está mais caro. É aquela velha questao de aumentar o salário sem aumentar a oferta de produtos e serviços não vai trazer mais benefícios para ninguém.
    Além disso, gostaria de saber qual sua opinião econõmica e social do governo Dilma.
    Abraços!

  25. romão gomes

    Bom dia! Seus gráficos ilustram o período FHC e períodos posteriores. Mas também devia aparecer nos gráficos ao menos os dois governos anteriores aos de FHC para que, por meio dos mesmos, estabelescessemos uma comparação visual.

  26. Ana Laura

    Análise mal feita e tendenciosa. O plano real tinha como uma daa bases o câmbio. Em 1999 houve crise cambial e a expectativa era de atingir taxas de 20 a 50. Portanto 8,94 foi um resultado muito bom. Em 2002 a inflação teve aspecto político, era a expectativa da mudança de governo que criou a alta, mas por Lula ter continuado o plano econômico do governo anterior, com ajuda de Armínio Fraga, a inflação voltou a cair.

  27. Gostei do Texto.
    Mas vale lembrar o cenário mundial vivido desde a década de 80. As crises que afetaram Brasil, México e Russia na década de 90.
    A Crise Asiática no final de da década de 90, bolha da internet e posteriormente as torres gêmeas.
    O Cenário era péssimo mundialmente, e creio que a culpa não foi só do FHC.
    Como gosto de Gráficos, posso dizer que o seu ficou bom, porém, falta informar qual metodologia foi utilizada para gerar as duas linhas que cortam os suportes e resistência.
    Sem essa informação, induz-se que o gráfico pode ter sido feito à mão, e dessa forma, manipulado.
    Um grade abraço!

  28. Zeca

    Comparar FHC com governo Lula é uma comparação desonesta e torta. Coloque Lula e Dilma para governar nos anos de 1995 a 2002, num ambiente de grandes restrições externas. Baixa liquidez internacional e crédito externo muito mais caro, com preços de commodities deprimidos. Gostaria que o autor escrevesse a respeito da diferença entre essas duas realidades, ponderando a dificuldade de cada um. Aí sim, seria uma avaliação mais honesta. Obs. Não votei em FHC e votei no Lula e na Dilma. Mas a análise precisa ser isenta e não partidarizada.

  29. wender silas

    Cyrus, parabéns pelo blog, pelo menos vc defende o PT com argumentos, coisa que poucos fazem. No entanto, discordo da sua visão. Para não me estender no assunto, gostaria apenas de falar que, infelizmente, os economistas ainda não inventaram um jeito de se sair de uma crise hiperinflacionaria sem custos, sem desemprego, sem redução da atividade econômica. O Plano Real foi, como qualquer plano de estabilização do mundo, penoso. Estude o plano Schacht, no qual o Plano real se baseou.

    A recessão do segundo mandato do FHC não se deveu como vc falou a um “esgotamento do plano real”, mas à crise global e à redução dos gastos públicos, que o congresso não quis levar adiante até a crise mundial agravar a situação (por crise mundial eu digo a crise na Russia, Asia, EUA, etc.), mas que era necessária para efetivamente acabar com a hiperinflação.

    As metas de inflação na época realmente não foram atingidas, mas pelo menos havia “uma historia pra contar”. Não vamos esquecer que foi um periodo conturbado no mundo, com crises, principalmente nos paises emergentes, que minaram a confiança dos investidores nesses paises, além do 11 de setembro. O problema hoje é que não há nenhuma história, nada que justifique vc sair da meta mais que 2%. Principalmente se levarmos em conta que qualquer economista sabia o que tinha de ser feito pra contornar a situação já em 2011, quando a Dilma assumiu. E 4 anos se passaram sem que nada disso fosse feito. Agora, a Dilma veio com o Levy e ele vai ter que implementar medidas custosas e que não teriam um custo tão grande se tivessem sido feitaas há 4 anos atrás.
    Abraço

  30. Sandra

    Se há controle de inflação, por que as coisas estão tão caras? Digo, absurdamente caras…

  31. Seria interessante ver este estudo sem o último ano de FHC e primeiro de Lula e com o 2014 de Dilma.
    Porque a retirada do período de troca entre PSDB e PT? Basicamente a inflação deste período foi muito especulativa, pois abespinhava-se uma vitória do PT ao qual o mercado tinha horror, o que só foi diminuído em parte com a “carta aos brasileiros” de Lula se comprometendo com a manutenção do plano real – é bom lembrar que o PT sempre fora contra o plano e temia-se que fosse acabar com a moeda e os preços foram reajustados na especulação de uma futura inflação, que felizmente, não veio.

    E o último ano de Dilma porque a curva dela começa a ficar ascendente, com previsão de estouro da meta para este ano, que já começou com inflação recorde.

  32. Alexandre

    Há uma questão quase que pétrea na análise do controle inflacionário brasileiro alcançado em meados dos anos 90: o controle da inflação teria sido uma conquista do PSDB & aliados, combatida à época pelo PT & oposição. O que não se aborda é o porquê dos partidos de oposição à época se posicionarem contrários ao Plano Real. Numa visão superficial – sugiro então um aprofundamento aqui do blog a respeito – pode-se dizer que o Brasil vinha de sucessivos planos econômicos que resultaram em fracassos, em maior ou menor grau, mas sempre atingindo as camadas menos protegidas da sociedade, vide Planos Cruzado, Bresser, Verão, Collor I e II. Não era de se esperar que partidos de oposição, em especial os de esquerda, se posicionassem favoráveis ao que parecia ser mais uma aventura de economistas. Na mesma medida, é importante lembrar a importância destes fracassos anteriores na modelagem dos parâmetros diretores do novo Plano Real. O Real não foi uma inovação enquanto projeto de controle de inflação, pois vinha na esteira de meia dezena de planos em apenas sete anos que também buscavam o mesmo objetivo final. Com isto coloco a relativização da afirmação posta no início do texto, de que “o controle da inflação teria sido uma conquista do PSDB & aliados, combatida à época pelo PT & oposição”. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar, eu diria. Assim como a oposição na época não era contra o plano, mas sim apenas contra um novo desastre, a situação não fazia nada além do que ela já vinha fazendo há quase uma década, que era domar a inflação sem precisar expor os detentores do grande capital em risco.

  33. Jomar Rex

    Creio na estabilidade no governo Dilma vamos vencer a inflação e crescer com sustentabilidade

  34. Marcio Ferreira

    Olá, gostei muito da sua explanação. Bastante esclarecedor. Mesmo leigo em economia, acompanho bastante as noticias sobre o assunto na mídia. Percebo que a inflação se comporta de maneira delicada quando o poderexplanação. a população aumenta. Percebo que nesse caso o governo usa de dispositivos de controle, como aumento de juros, ou diminuição dos gastos públicos, para frear o consumo. Baseado nisso, gostaria de saber até que ponto, no atual cenário econômico, o comportamento de consumo da população interfere no comportamento da inflação e também qual era essa influência na época da hiper inflação desde já agradeço e mais uma vez elogio sua explanacao

    • Marcio Ferreira

      Desculpe. Houve um problema na publicação de meu comentário, na parte “percebo que a inflação se comporta de maneira delicada quando o poder de compra da população aumenta”.

  35. Sebastião Sena

    Cyrus, após 19 meses da publicação do seu artigo, tens como fazer uma breve análise do cenário econômico atual? Hoje temos dólar à quase 4 reais, déficit de 35 bilhões no orçamento, inflação totalmente muito acima de meta, corte nos direitos trabalhistas. Pacote de impostos com a possível volta da CPMF Até a publicação do seu artigo a administração PT vivia na bonança, minha pergunta final, o governo PT perdeu a mão da economia? O que esperar, pois acredito que estamos quase em recessão, lembrando que nem de longe Dilma teve os percalços do governo FHC e LULA (crise econômica mundial). Em tempo, seu artigo foi brilhante. Um grande abraço.

    • Obrigado pelo comentário, Sebastião. A situação econômica atual é muito complexa e, com a instabilidade política, torna-se muito difícil fazer análise mais qualificada, baseada em evidências e dados. No momento, devo admitir, anda estou tentando entender o que aconteceu (principalmente entre 2011 e 2013) para nos levar a essa situação em que nos encontramos. Não me convenço pela opinião dominante que o governo “gastou demais”. Sigo em busca de uma explicação convincente, baseada em evidências… Obrigado pelo comentário!

  36. Perfeito!! Muito boa sua pesquisa, passei por todas essas épocas e me lembro de tudo isso. Mas o povo brasileiro tem memória curta infelizmente! Parabéns!

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