Decretado como morto, BRICS recebem 20,6% mais investimentos estrangeiros diretos em 2013

Grupo de cinco países concentrou no ano passado 22% de inversões produtivas do mundo

A chamada “imprensa especializada” precipitadamente decretou, reverberando a gigante do sistema financeiro Morgan Stanley, que os BRICS estão em declínio, estão “frágeis”, especialmente Índia e Brasil, e que a bola da vez seriam os MINT (México, Indonésia, Nigéria e Turquia).

Esqueceram de combinar com os russos.

E foi justamente a Rússia que “puxou” o investimento estrangeiro direto (IED) em 2013: nada menos que US$ 42,5 bilhões a mais que no ano anterior, ou alta de 82%, e foi alçada à terceira posição no ranking mundial de destino de IED.

O investimento dito “produtivo” em todo o mundo cresceu US$ 110 bilhões (+10,7%). Os BRICS foram responsáveis por nada menos que 50% deste aumento:  no total, o investimento estrangeiro no grupo subiu de US$ 267 bilhões para US$ 323, crescimento de 20,6% (e não 17% como publicado anteriormente).

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Em termos relativos, o membro dos BRICS que mais se destacou em 2013 foi a África do Sul, cujo IED aumentou 118% no ano, mas cuja base de comparação era baixa (passou de US$ 4,5 bilhões para R$ 10 bilhões). A Índia elevou o recebimento de IED em 9,6%, mas a base de comparação também não era tão elevada: subiu de US$ 25 bilhões para US$ 28 bilhões.

A China, 2º maior destino do IED, manteve um fluxo elevado, com alta de 4,9%, atingindo seu patamar recorde.

Nenhum país dos MINT atingiu o “top 10” da lista, apesar do bom crescimento do México (12º).

Já o IED do Brasil apresentou queda. Desabamento? Apocalipse? Fim do mundo? Bom, não. O IED caiu pra cima. Como o blog antecipou no mês passado, o país bateu seu recorde de investimento em um triênio. Então, antes de fugir para as colinas, como sugere tacitamente o Jornal da Globo, aqui cabe contextualizar um pouco.

Em 2011, o país atingiu seu recorde histórico: US$ 66 bilhões (4% de todo o investimento estrangeiro do mundo). Em 2012, ano do “pibinho”, a melhora do Brasil foi relativa: o país aumentou ainda sua participação no IED mundial, de 4% para 4,9% do total, e subiu da 5ª para a 4ª posição no ranking, atrás de EUA, China e Hong Kong, respectivamente (dado que Hong Kong é parte da China, pode-se dizer que chegou em 3º).

Mas o ano do “pibinho” foi também, no plano internacional, o ano do “IEDzinho”: o fluxo de investimento estrangeiro caiu nada menos que 20% no mundo, para níveis próximos de 2009, auge da crise financeira global. No Brasil, a queda foi de 2,1%, sempre muito acima dos US$ 60 bilhões. Uma “marolinha”.

Participação do Brasil no IED mundial - global FDI 1990-2013

Já em 2013 era grande a torcida contra (também conhecida no jargão como “expectativa do mercado”) por parte dos analistas econômicos e da mídia nativa e estrangeira especializadas.

Ouvidos pela Folha, a consultoria Sobeet (Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Nacionais e da Globalização Econômica) cravava, em maio, que o investimento estrangeiro cairia 16%, de US$ 65 bilhões em 2012 para US$ 55 bilhões em 2013.

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Visão bem mais pessimista que a mediana dos analistas do mercado financeiro, medida pelo Boletim Focus, que apostou ao longo de todo o ano num IED de US$ 60 bilhões, ou 8% mais baixo que o de 2012.

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No fim, houve, sim, uma queda. De 8%? 16%? 32%? Não, o investimento produtivo caiu 1,9%, para US$ 64 bilhões, superando as expectativas mais “otimistas” dos analistas do mercado. O valor elevado e a regularidade são muito significativos, mas isso foi desprezado pela imprensa por não “compensar” o déficit nas transações correntes, que, como vimos no post anterior, NÃO FOI o pior da história.

Para a GloboNews, o que importou foi que “desabamos” no ranking e perdemos três posições. Como se se tratasse de um campeonato de futebol. Sim, a mídia especializada está lamentando que o Brasil é o 7º (SÉTIMO) maior destino de investimento direto no mundo.

Mas, é verdade, caímos no ranking. Segundo a UNCTAD, fomos de 4º para 7º.

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Então tá, se posição em ranking é o importante (not!), vamos analisá-la: a tabela mostra o Brasil tendo recebido US$ 63 bilhões e o Canadá, US$ 64 bilhões. Mas de fato, o Brasil também recebeu a mesma quantidade, segundo dados do Banco Central do Brasil (são dados oficiais que subsidiam estudos da ONU). Logo, estamos empatados em 6º. Ao colocando China e Hong Kong juntos “como se fossem um só país”, subimos para 5º.

Aí vem o 4º colocado. Depois de EUA, China(+Hong Kong) e Rússia, temos a potência… ILHAS VÍRGENS BRITÂNICAS. Sim, Ilhas Virgens Britânicas: 153 km2, população de 28 mil pessoas. PIB: US$ 852 milhões. Investimento estrangeiro direto… US$ 92 bilhões! Evidentemente, o IED não fica de fato no país. Nem cabe tanto dinheiro lá.

As Ilhas Virgens Britânicas são quase um “paraíso fiscal de empresas offshore” do mundo todo, (inclusive do Brasil, como a Rede Globo, Banco Santos e Banco Panamericano), que registram suas empresas ali para evitar elevados pagamento de impostos, entre outros benefícios. E o dinheiro injetado nessas empresas entra como investimento estrangeiro direto. Analistas (especialmente da OCDE) consideram o investimento nas Ilhas Virgens Britânicas como investimento no Reino Unido, o que, no caso, não é muito preciso (apesar de ser território britânico). Já a UNCTAD faz certo em diferenciar ambos.

Portanto, o território britânico é no máximo uma plataforma de investimento e não o destino final do capital. “Desclassificando” o arquipélago do campeonato, o Brasil vai à 4ª posição. Ou seja, perdemos “de verdade” uma posição apenas no ranking, para a Rússia, que, como vimos, teve um súbito aumento de 82%, chegando a US$ 94 bilhões.

Mas é preciso relativizar até mesmo o desempenho russo. O país foi palco, em março de 2013, de uma mega aquisição no ramo de energia (que na época nem sequer mereceu uma notinha nos principais jornais brasileiros). A transação deu origem à maior empresa de petróleo do mundo, a Rosneft, cujo controle é do governo russo.

Em um complicada operação compra-lá-vende-cá, a “grande irmã” British Petroleum adquiriu mais 18,5% da Rosneft, que por sua vez comprou da BP o controle de 100% da TNK-BP. Por sinal, a TNK-BP, então a terceira maior empresa de petróleo e gás que opera na Rússia, tinha sua sede registrada… nas Ilhas Virgens Britânicas. Entendeu tudo? Pois é, tá russo…

Bom, o resumo da ópera é o seguinte: nesse entra-e-sai de dinheiro da operação, o saldo final foi US$ 12,5 bilhões se mandando do território russo direto para o bolso dos acionistas da BP em Londres. Segundo o Guardian, foi bem menos que os acionistas esperavam. E para completar a compra da TNK-BP, os russos tiveram de fazer um emprestimozinho com os chineses de US$ 40 bilhões. De fato, a OCDE apontou que além da entrada, houve SAÍDA de US$ 56 bilhões de investimento direto da Rússia por conta dessa complexa aquisição. Tá bom ou quer mais?

Ou seja, no fim das contas, esse boom na entrada de investimento estrangeiro direto na Rússia não quis dizer necessariamente aumento extraordinário de capacidade instalada, produção, emprego e crescimento a médio-longo prazo. Nem todo investimento estrangeiro é assim. Em aquisições (em especial, privatizações) é exatamente o caso. Ou seja, é diferente de um avanço “orgânico”, sustentável e consistente do IED, que gera produção “nova” a partir de recurso “novo”.

Enquanto isso, o Brasil vai para seu terceiro ano de investimento direto acima dos US$ 60 bilhões. E sem vender patrimônio.

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4 Comentários

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4 Respostas para “Decretado como morto, BRICS recebem 20,6% mais investimentos estrangeiros diretos em 2013

  1. Otto

    Parabéns pelo blog!

    Você mata a cobra e mostra pau!

    Ao contrário da velha mídia cara de pau.

  2. Marcos Batista

    Olá,

    andei debatendo sobre a situação atual do Brasil e ela elaborou a seguinte análise: “O país em 2014 está estagnado, com inflação beirando o teto da meta, juros em ascensão, sujeito a ter o rating de sua dívida rabaixado e com déficit no balanço em conta corrente.

    Os últimos dois planos econômicos que deram certo foram o Paeg (viabilizou o crescimento nos anos de 68-73, conhecido por o “Milagre Brasileiro”) e o Plano Real.

    As reformas destes planos viabilizaram o controle monetário, reorganizaram as finanças públicas e introduziram maior racionalidade no sistema econômico como um todo, aumentando a segurança e incentivando os investimentos.

    Na época do Real, o Estado deixou de ser empresário e se concentrou na sua tarefa de coordenador. No primeiro governo do Lula houve uma redução no ritmo das reformas, mas não houve inversão da rota. Lula I optou por manter a estabilidade macroeconômica buscando melhoria na distribuição de renda. É uma opção saudável dentro do sistema democrático.

    Em 2008 tivemos uma crise externa e ela foi utilizada como justificativa para reversão das reformas e a partir daí começou-se a desconstrução do real: o Bacen perdeu a sua independência operacional, as agências reguladoras sofreram aparelhamento, os bancos públicos foram induzidos ao gigantismo (o que leva a indução da dívida pública), a Petrobrás foi descapitalizada para ajudar no combate a inflação, etc…

    Resultado: inflação acima da meta desde 2008, crescimento baixo, elevados déficits em conta corrente (déficit externo), apagões, baixo investimento, aumento dos custos de produção, deterioração das contas públicas, maior inadimplência, etc…

    O impacto fiscal dos subsídios ao crédito (diferença entre o custo de captação do Tesouro e dos empréstimos do BNDES) vai se dar ao longo dos próximos anos e talvez décadas. Nós que pagaremos a conta.

    O governo tinha como opção aumentar a renda disponível corrente por meio de transferências, renúncias fiscais, subsídios e elevação do salário mínimo OU realizar gastos em serviços públicos e infraestrutura. O exemplo mais claro dessa troca é o setor de transportes, em que o governo subsidiou a compra de carros e a gasolina, mas a população se ressentiu (manifestações) dos preços e da qualidade dos trens e ônibus.

    Os serviços públicos seguirão com baixa qualidade, uma vez que o investimento tende a encolher com o atraso da correção das tarifas – as empresas reduzem investimentos não só porque têm menos recursos mas também devido à incerteza regulatória, isto é, o governo privilegia o consumo em detrimento do investimento e da melhoria dos serviços públicos.

    Se o governo decidisse alterar as prioridades daqui para frente, a tarefa não seria nada fácil porque a política fiscal dos últimos anos teria que ser revertida. Teria que reduzir as renúncias e subsídios fiscais, corrigir as tarifas e diminuir uma parte das transferências. Mas essa reversão tem como consequência a redução da renda disponível e do crédito para os cidadãos. Logo, não irá fazê-lo, pois irá perder votos. A pessoa tem que se aprofundar no assunto para entender com clareza estes detalhes e estes poucos não irão fazer diferença no resultado final das eleições.

    No momento, o Bacen está vendendo dólares para evitar a depreciação do real. Mais uma vez está evitando um ajuste de preços que, no longo prazo, acontecerá de qualquer forma.

    Tradução de um monte de coisa comentada acima: o governo continua intervindo na formação dos preços de mercado. Ele tenta controlar preços (juros, câmbio, etc…) e os resultados DESEJADOS não estão acontecendo (nunca ocorreram com esta matriz econômica atual – são frutos de desejo e não de resultados empíricos).

    Não quero influenciar o voto de ninguém. Estou apenas explicando o montante enorme de evidências sobre o despreparo da atual equipe econômica. Se fosse no futebol o Mantega e a Dilma já teriam sido demitidos faz tempo.

    Repare também que fiz um elogio ao primeiro governo do Lula, isto é, não abuso de desejos ideológicos…palavras como direita e esquerda soam mal para mim. Quero saber dos resultados e evidências empíricas…dos números disponíveis. A dialética retórica (o que eu acho que deveria ser e não como é de fato) não me interessa nem um pouco.” Na minha modestíssima opinião, não concordo com nenhum dos pontos apresentados. Ao encontrar o seu blog fiquei feliz de encontrar análises tão bem feitas e bem elaboradas, e, além disso, pontuadas com honestidade intelectual e sobriedade. Fico feliz que uma poágina assim possa existir.

    um abraço,

    Marcos Batista.

    • Olá, Marcos! Muito obrigado pelo comentário. E muito obrigado por compartilhar a análise (não entendi bem de quem, talvez de uma colega sua). Estou pensando até em transformá-la em um post-resposta. Espero que não se incomode… Um abraço!

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