Número de passageiros aumenta em 2013 após ampliação das faixas exclusivas em SP

Entre setembro e dezembro, sistema passou a fazer 13 milhões de viagens a mais em relação ao mesmo período do ano anterior

Outro dia estava no Twitter, e deparei com um comentário da ex-vereadora Soninha, inconformada com a leniência da imprensa com o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad: “Nunca dantes prefeito tão fraco teve tanta benevolência da mídia. Aceitam qqer ‘dado’, fazem propaganda grátis”, e recomendava a leitura de um blog chamado “Questões Paulistanas”.

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Época, Schneider, Soninha: unidos contra as faixas exclusivas (Fotos: reprodução e Wikipedia)

Os autores do blog, até o momento, são anônimos, e se definem apenas como “um grupo de apaixonados por estatísticas, políticas públicas e pela cidade, com a pretensão de contribuir para um debate de alto nível sobre a realidade da metrópole e as suas opções de futuro”. Além de Soninha, a única menção ao blog que encontrei no Google foi feita no Facebook por Alexandre Schneider (PSD), ex-secretário da Educação da gestão Kassab e candidato a vice-prefeito na chapa encabeçada por José Serra, em 2012. Até aí, tudo certo, faz parte do jogo do debate político, embora o fato de Soninha e Schneider (dois opositores intransigentes da atual prefeitura) estarem, por coincidência, promovendo o Questões Paulistanas sugira que o blog não é, assim, tão neutro e altruísta quanto sua descrição dá a entender.

Neste blog nebuloso anônimo, há apenas um post, publicado em janeiro, criticando reportagem do Estado de São Paulo que informava que “Sistema de ônibus de SP transportou 6 mi a mais em 2013”.

O argumento da reportagem, contestado pelo blog, é que o aumento de 6 milhões de viagens feitas no sistema de transporte coletivo do município de São Paulo teria acontecido por conta da ampliação das faixas exclusivas de ônibus (pessoas estariam até mesmo deixando o carro em favor do uso dos ônibus) e que isso seria uma reversão da tendência de redução no número de passageiros transportados.

A segunda objeção é que não se trata de uma reversão de tendência, como a prefeitura argumenta e como a reportagem do Estado “comprou”. O blog traz uma tabela com dados da SPTrans (semelhante à tabela abaixo) que mostra aumentos seguidos ao longo da década, com exceção de 2012.

Passageiros transportados - anual 1999-2013  - tabela

A primeira objeção do blog é que essa ampliação não é significativa. À primeira vista, o argumento faz sentido: um aumento de 6 milhões de viagens em um universo de quase 3 bilhões não é nenhuma revolução. É apenas um leve aumento de 0,2%, quase estabilidade.

A terceira objeção é a que mesmo esse leve aumento não foi localizado no chamado “subsistema estrutural” (de ônibus normais, articulados e biarticulados), mas no “subsistema local” (que usa micro-ônibus e vans nos bairros). Em 2013, o subsistema estrutural diminuiu o número de passageiros transportados em 0,75%, e o subsistema local aumentou esse número em 1,45%. E, como as faixas exclusivas são parte do subsistema estrutural, a conclusão do blog é que essa política não afetou o sistema. E que a única política que teve algum impacto (negativo) teria sido a suspensão de linhas e mudanças do itinerário, que teria forçado as pessoas a fazer mais baldeações e viagens pelo subsistema local.

Só que, como disse o próprio Questões Paulistanas, “os dados, se analisados com cuidado, parecem apontar para outra realidade”. E tão importante quanto dados confiáveis é ter conhecimento do contexto histórico em que eles estão.

Como se sabe, as faixas segregadas foram implantadas de maneira mais acelerada no segundo semestre, depois das Manifestações de Junho. Antes disso, nenhuma grande mudança tinha sido feita em 2013. Portanto, a tendência até o 2º semestre seria de inércia. No caso, a inércia era um movimento de queda.

É exatamente o que se observou nos primeiros meses do ano, em especial no subsistema estrutural (com exceção do mês de abril), ao comparar cada mês de 2013 com o mesmo mês do ano anterior. De fato, desde outubro de 2011, o subsistema estrutural de transporte vinha perdendo número de passageiros transportados (viagens), quando comparado com o mesmo mês do ano anterior (com exceção apenas de três meses: março e outubro de 2012, e abril de 2013).

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Havia, então, uma tendência, sim. De médio prazo, mas uma tendência de queda. E, mais: levando em conta apenas os ônibus normais e grandes, houve queda por cinco anos seguidos no número de viagens realizadas, entre 2009 e 2013 (veja na tabela acima). Ou seja, ao contrário do que argumenta o Questões Paulistanas, o subsistema estrutural vinha perdendo passageiros ano a ano, assim como o sistema como um todo, nos últimos 20 meses.

Só que a partir do 2º semestre de 2013, porém, houve uma recuperação no número de viagens realizadas no subsistema estrutural. A quantidade de passageiros transportados aumentou por quatro meses seguidos, entre setembro e dezembro, em relação ao respectivo mês do ano anterior.

Foi bem nesse período quando as faixas exclusivas passaram a funcionar mais efetivamente. Nos últimos 4 meses do ano, o subsistema estrutural realizou o transporte de 13 milhões de passageiros a mais que o mesmo período do ano passado. A aceleração do fim do ano, no entanto, não compensou a redução de 25 milhões de passageiros transportados nos primeiros 8 meses do ano, e o subsistema estrutural fechou 2013 com 12 milhões de viagens de passageiros a menos que em relação a 2012.

Ou seja, apesar de não ser possível afirmar apenas com esses dados que as faixas exclusivas foram responsável por esse pequeno aumento no número de passageiros transportados, a hipótese é bastante plausível. Tampouco se pode afirmar que a reversão na tendência (de médio prazo) vai continuar por mais tempo e se traduzir em um movimento mais consistente (mudança de tendência de longo prazo). Mas não se pode ignorar que há, sim, uma reversão do movimento negativo anterior.

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Evidentemente que esse aumento médio no número de viagens nos últimos 4 meses no subsistema estrutural, de 2,45% sobre os quatro meses de 2012 não é tão grande quanto o aumento de 2004 e 2005, quando foram implantadas mudanças que mexeram no bolso dos usuários (o bilhete único e, depois, a integração com o metrô). Mudanças estas que deixaram o transporte mais barato, incentivando de maneira mais imediata a migração para o transporte coletivo – ou seja, houve um fator de elasticidade/econômico, e isso será difícil de repetir…  vamos ver o que acontece se o bilhete mensal decolar.

Mas esse aumento de passageiros transportados nos quatro últimos meses do ano não deixa de ser bastante significativo, justamente por esse universo gigantesco.

E, dado também que as linhas de ônibus começaram a ser modificadas ou excluídas também no fim do ano, quando houve aumento nas viagens do subsistema estrutural, pode-se rejeitar a hipótese apressada levantada pelo Questões Paulistanas de que pessoas foram forçadas a fazer mais viagens e por isso aumentou o número de passageiros no subsistema local e não no estrutural.

Pessoalmente, posso dizer que usei várias vezes ônibus dessas faixas e posso dizer que é ótimo. Bem melhor que antes. Já como motorista de automóvel, digo que às vezes é confuso, com várias entradas e saídas na faixa da avenida. Evidente que há necessidade de ajustes e que corredor é melhor que faixa.

Mas o que importa é que a direção está certa, diferentemente dos anos anteriores, quando os corredores “exclusivos” passaram a acolher também transporte individual e faixas na marginal Tietê foram criadas em vez de fechadas, sem nenhum quilômetro novo de corredor, denotando claramente a opção individual sobre a opção coletiva. Modelo defendido justamente pela administração Serra-Kassab, apoiada por Soninha e Schneider.

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1 comentário

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Uma resposta para “Número de passageiros aumenta em 2013 após ampliação das faixas exclusivas em SP

  1. As faixas exclusivas não funcionam – ficam a maior parte do tempo vazias. Os ônibus não estão andando mais rápido, já que t6em que parar a cada 500m em um ponto – e com mais passageiros, demoram mais tempo em cada ponto. Pior – com a cidade mais lenta no geral, mais dinheiro perdido em combustível, tempo e negócios! Haddad-PT não será reeleito, nem Eduardo Suplicy-PT.

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