Sobre pesquisas de opinião e seus vieses

Pesquisas de opinião são instrumentos importantes de informação. Se conduzidas de modo honesto e rigoroso, como na maioria dos casos, é possível capturar tendências e, a partir delas, podemos traçar cenários e fazer análises de conjuntura.

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No entanto, é preciso entender que pesquisas podem ter falhas – algumas deliberadas, outras não. As falhas em geral dizem respeito à metodologia: a pesquisa pode errar no método de seleção da amostra, na formulação do questionário ou na própria coleta das opiniões.

Ter acesso ao questionário completo é importante porque suas respostas podem apontar os nexos causais das grandes tendências. E é só assim que se pode fazer críticas e identificar eventuais falhas. Ainda bem que institutos como o Datafolha e o MDA/CNT liberam o acesso.

Na pesquisa da MDA/CNT divulgada no dia 30/04, apontou uma queda de 6,7 pontos da presidente Dilma, apenas confirmando o que os outros institutos já apontaram em março.

O problema, nessa pesquisa, está no questionário que segue. Um dos temas do questionário, era a Petrobras. Foram feitas 4 perguntas, feitas nessa ordem:

As perguntas foram as seguintes:

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Daí já começam os problemas: o primeiro é o encadeamento das questões. A primeira questão já fala em “denúncias”, depois “investigação”, depois “irregularidades” e depois fala que Dilma “dirigia o Conselho de Administração”. Ou seja, a sequência de perguntas leva a um condicionamento do entrevistado que, em última análise, vai afetar a última questão.

A formulação da pergunta 2 também é problemática: é evidente que a maioria absoluta das pessoas será a favor que se “investigue informações”… sobre qualquer coisa, caso alguém pergunte. A pesquisa apontou que 45% é a favor de uma CPI para investigar a Petrobras. Certamente haveria percentual semelhante a favor de investigar o Trensalão, a Labogem ou qualquer outra história mal contada. Muito melhor teria sido perguntar algo do tipo: ” Você é a favor de uma CPI exclusiva para investigar as denúncias na Petrobras ou de uma CPI ampla para investigar além da Petrobrás, as denúncias de irregularidades no cartel dos metrôs e no Porto de Suape”.

Em seguida é feito um “recorte” só com as pessoas que dizem que “acompanham” (30%) ou que “ouviram falar” (20%) do caso da Petrobras. Nesse recorte, 91% se diz favorável à CPI. É esse o número que vai para a manchete: 91%… da metade da amostra. Dirão que é a metade “informada”, daí a importância. Só que não é metade: só 30% DIZ acompanhar o noticiário.

O quarto problema é a formulação das questões 3 e 4. As questões são feitas de tal modo que induzem o entrevistado a dar uma certa resposta.  Não satisfeitos com a formulação enviesadas das perguntas, decidiram dar opções de resposta ainda mais enviesadas para a questão 4: as únicas opções apresentadas (depois de uma pergunta enviesada, num encadeamento enviesado) são as seguintes:

1 – Sim. Ela é responsável porque deveria se informar bem antes da aprovação do negócio

2 – Não. Ela foi mal informada a respeito do negócio da Petrobras

 

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Ora, é evidente que, ao apresentar essas duas opções para a maioria das pessoas estarão predispostas a escolher pela 1ª… Soma-se a isso o “recorte” da metade que se diz “informada” (bem ou mais ou menos) e você tem a seguinte leitura na imprensa:

Dos que estão acompanhando o tema ou ouviram falar, 91,4% apoiam a realização da CPI no Congresso. Para 80,5% houve irregularidade na compra da refinaria de Pasadena e 66,5% acham que Dilma tem responsabilidade no episódio porque deveria ter se informado melhor antes de aprovar o negócio” (G1)

E o enviesamento vira manipulação.

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1 comentário

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Uma resposta para “Sobre pesquisas de opinião e seus vieses

  1. Sérgio Dimitruk

    Caro Cyrus !

    Como de praxe, muito bom esse seu post…

    Pena q essa manipulação constante, capitaneada pela grande mídia, vai “fazendo a cabeça” da grande maioria da população q pouco, ou nada, questiona as informações e, principalmente, o modelo do “jornalismo” vigente…

    E toda voz discordante, como as nossas, são rotuladas…

    Mas, independente dessa desproporcional luta entre o David e o Golias, fazemos nosso papel de conscientizadores…

    E, a quem persegue sempre a verdade, o respeito, a imparcialidade e a transparência, independente da cor partidária ou das convicções ideológicas, esse cenário manipulado, parcial e mentiroso, enoja…

    Abraços

    Sigamos adiante !!!

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