Boletim Focus erra 77% de suas previsões de PIB em meses de julho

Das 13 previsões, apenas três foram “realistas” e seis foram bem mais baixas que crescimento da economia efetivamente verificado

O mercado está nervoso. O mercado está calmo. O mercado está em clima de euforia. O mercado não aceitou bem a notícia. O resultado agradou o mercado.

Frases cotidianas do noticiário econômico que tratam o mercado – o local, territorial ou não, onde as trocas comerciais são feitas – como se fosse, ele próprio, um agente. E não qualquer agente, mas uma deidade que precisa ser agradada e mantida satisfeita o tempo todo, sob pena de os mortais sentirem a sua ira.

Boletim Focus - xamanismo

Xamãs do mercado financeiro preparando o Boletim Focus de julho.

Juram os tementes ao deus-mercado que certos representantes dessa deidade têm poderes de oráculo, que, no caso do Brasil, se revelam todas as segundas-feiras, e que mostra o futuro da economia daquele ano e do ano seguinte, conhecida entre os crentes por “Boletim Focus”.

Só que essas previsões, apesar do alarde que se faz toda semana em torno delas (na falta de notícia melhor), não são uma verdade divina. De fato, elas tendem a errar quase sempre. Nada menos que 77% das vezes.

Focus - junho

A tabela acima traz as previsões do Boletim Focus (a.k.a. o Oráculo), com as estimativas, em %, do crescimento real do PIB apresentadas na Revelação da primeira semana do mês de julho de cada ano, desde 2001, o crescimento efetivamente verificado em cada ano, a diferença e o veredito (o viés). Dizem os infiéis que se trata de uma mediana das previsões dos principais agentes do mercado financeiro (bancos, corretoras etc.).

Os vieses foram classificados (ex-post) em “otimista” (quando a previsão é maior que o verificado), “pessimista” (quando a previsão é menor que o verificado) e “realista” (quando a diferença entre previsão e realidade é de 0,2 ponto para mais ou para menos). Aqui eu dei uma colher de chá para o deus-mercado: antes a margem de erro que eu tinha definido para uma previsão “realista” era de 0,1 ponto (aí apenas UMA previsão seria considerada “realista”).

Pois bem, nestes últimos 13 anos, a margem de erro, em pontos percentuais (modulados) foi de nada menos que 0,77 pontos percentuais do PIB. Uma enormidade.

No período, ouve apenas três (isso mesmo, TRÊS) previsões realistas: a de 2005, 2009 e 2013 (vale dizer que, na última previsão dos anos de 2005 e 2013, no mês de dezembro, o oráculo mudou de ideia e acabou sendo mais pessimista que a realidade se configurou afinal).

A maioria das previsões teve um viés “pessimista”: nada menos que 6 das 13 realizadas. O número poderia ser maior, se incluíssemos os anos de 2005 e 2013, quando o oráculo errou por -0,16 ponto, mas consideramos essa diferença uma margem dentro de uma previsão “realista” (embora essa porcentagem “ínfima” signifique um erro na ordem de centenas de BILHÕES de reais).

Apenas 3 das 13 previsões foram “otimistas”. Surpreendentemente, duas dessas vezes em que deus-mercado foi otimista foram anos em que Dilma – considerada pelos crentes uma herege mercantil – estava no poder: 2011 e 2012. No outro ano de seu mandato, 2013, o mercado foi “realista”. A outra ocorrência de otimismo do mercado em julho foi em 2001, ano do racionamento, ainda na gestão FHC. Naquele ano, que se seguiu ao ano do apagão, o otimismo foi o maior da série histórica: o oráculo errou por nada menos que 1,69 ponto percentual.

Então por que a mídia dá tanto destaque para um boletim que está 77% das vezes fora de focus?

***

Xamanismo em tempos de Copa

Em tempos de Copa, os oráculos do mercado se acharam no direito de palpitar usando de xamanismo algoritmos sofisticados, modelos estatísticos complexo e matemática aplicada avançada para projetar os cruzamentos das finais da Copa… antes, claro, do início da competição. O autor da profecia foi nada menos que a divindade Goldman Sachs.

Goldman Sachs na Copa

O resultado foi pífio. Errou TODOS os confrontos das oitavas de final. E mais: errou 11 das 16 seleções, seja por ter errado a seleção classificada dos respectivos grupos (Espanha, Itália, Rússia…), seja por ter errado o chaveamento (quando a equipe se classificou, mas em posição diferente da prevista pelos bruxos economistas), como Holanda, Colômbia e Bélgica. Noves fora, isso significa uma taxa de erro de 68,8%.

Não fosse pelas “barbadas” Alemanha, Argentina, Brasil e França, que qualquer analfabeto futebolístico diria que avançariam em primeiro de seus respectivos grupos, o deus Goldman só teria acertado 1 palpite: o de que o Uruguai passaria em 2º de seu grupo. Dos grupos “difíceis”, erraram todos. Os deuses já fizeram mais milagres.

Goldman Sachs na Copa 3

Aí, claro, olhando para as semi-finais, os mais fervorosos dirão que o deus Goldman acertou 3 dos 4 finalistas. Mas, calma. As semi-finais eram a parte mais fácil de prever, sem a necessidade de pirotecnias, dado que Alemanha, Argentina e Brasil eram favoritos em seus grupos e eram os três favoritos de toda a Copa… ao lado da Espanha. Assim, a semi-final prevista de modo acertado foi as mais óbvia. O milagre seria prever as oitavas.

Por que ainda ouvimos o que esses oráculos meia-boca têm a dizer?

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3 Comentários

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3 Respostas para “Boletim Focus erra 77% de suas previsões de PIB em meses de julho

  1. the coach 2011

    Estas diferenças não são calculadas como um menos o outro e sim devem ser calculadas como percentual a mais ou a menos, OK ?

  2. Prezado Dr. Birigüi Di Soterópolis. Cordiais saudações. A título de mera curiosidade digna, creio eu, de constar na próxima edição do Almanaque Capivarol, estampas Eucalol (?)ou, quem sabe, figurinhas dos chicles Ping Pong(?) convido-vos a calcular o crescimento acumulado do PIB – estimado e realizado – de todos estes anos base 2001. Podereis vos surpreender. Grd Abç.

  3. pedro pinho

    Reflexões sobre o capitalismo de hoje

    Pedro Augusto Pinho

    A II Guerra Mundial consolidou o capitalismo industrial norte-americano e se impôs como padrão a ser conquistado por todas as nações. O derrotado era o capitalismo financeiro, já enfraquecido pelos movimentos anti-coloniais e pela independência das antigas colônias inglesas, que agora se submetiam ao complexo industrial-militar americano ou ao poder soviético. Verificando as taxas de juros nos EUA, encontramos entre 1940 e 1955, ou seja, por 15 anos taxas iguais ou próximas a 2% a.a. Anteriormente, desde 1900, e até 1960 elas, comportadamente, não superavam 4% a.a.
    Os anos 1960 trouxeram a reação do capitalismo financeiro incentivado pelos movimentos ecológicos. É verdade que, tanto o preservacionismo quanto o conservacionismo, desde John Muir e Gifford Pinchot (final do sec XIX) já existiam, mas foi a partir dos anos 1950 que estas idéias começaram a tomar corpo político e se ligaram ao crescimento econômico. Basta ver que a primeira institucionalização de controle ambiental surge em 1970 com o National Environment Policy, nos EUA.
    Mas o momento marcante foi a publicação, pelo Clube de Roma, dos Limites do Crescimento, em 1972, também conhecido como Crescimento Zero. Era uma resposta do capitalismo financeiro, empurrando na parede, com auxílio dos movimentos ecológicos, o capitalismo industrial.
    É novamente interessante acompanhar as taxas de juros nos EUA. De 1975 até 2000, estiveram sempre acima de 6% a.a., com juros superiores a 10% a.a. entre 1980 e 1990 – as chamadas décadas perdidas.
    No Brasil, acompanhamos mais ou menos esta tragetória, depois das tentativas de industrialização de Vargas, veio a nova tentativa com JK, e depois com Medici e Geisel, este último procurando desenvolver as indústrias de ponta: nuclear, aéroespacial e de informática. É relevante registrar a criação do CNPq, em 1951, como a busca pelo conhecimento produzido no Brasil.
    A queda do muro de Berlim (1989) foi um verdadeiro abra-te sésamo para as finanças internacionais. As ideias de uma globalização já apareciam associadas à aldeia global, as músicas, modos de vestir e de sentir, identificando uma classe média nas Américas e na Europa. Este momento foi útil para que se criasse a ideia de um mundo financeiramente globalizado, onde os mais aptos triunfariam. Qualquer preocupação a respeito de uma competição entre desiguais e na enorme maioria de desvalidos de toda ordem era repudiada como sinal de atraso; certamente muitos vão se recordar das publicidades que associavam preocupações sociais e humanitárias aos seres da préhistória.
    Chegamos ao século XXI com o mundo ocidental desenvolvido, sob a governança do capitalismo financeiro, tendo as maiores taxas de desemprego, o fim da segurança social – raíz da violência que se encontra por toda Europa e muitas cidades dos EUA – e uma série de guerras para desfocar problemas e manter, pela força, governos cordatos. No entanto, uma força que nunca deve ser desprezada, a do nacionalismo, foi capaz de juntar países tão diferentes e em certas áreas competidores, como os BRICS na reação desenvolvimentista ao capitalismo financeiro. Aos BRICS vão se associando outras nações que são descontruídas nas páginas da grande imprensa, como ditatoriais – o que não ocorre para Dubai e Arábia Saudita – ou corruptas, como se não o fossem, por exemplo, as monarquias européias.
    Nesta segunda década do século, as posições político-econômicas se aguçaram com a pseudo crise de 2008, na verdade mais uma pressão para a concentração de renda – que acontece em todo mundo capitalista desenvolvido – e, de outro lado, com a criação e desenvolvimento de mecanismos e instituições financeiras fora da órbita do FMI e do Banco Mundial.
    É neste quadro que o Brasil passa por mais um desafio: continuar o desenvolvimento econômico, ainda que pequeno, ou retroceder ao financismo das décadas perdidas, onde se incluem os períodos de FHC. As questões são, então, desfocadas para corrupção (esquecendo os aécioportos e o metrô de São Paulo, entre outros) ou um anticomunismo velho de meio século, mas que é o que resta para alguns justificarem sua posição. Deste modo as questões da política econômica e do desenvolvimento ficam afastadas do debate eleitoral.
    E, de certa forma, há interesse em ambos os lados em não discutir este tema. Do lado da oposição, porque não tem como responder à estagnação de seu período no poder nem assumir, sem contrariar seus financiadores, uma proposta clara e objetiva política de desenvolvimento econômico. Do lado da situação pela complacência com os feudos empresariais e políticos: Alves e Maia no Rio Grande do Norte; Sarney, no Maranhão; Arraes, em Pernambuco e outros.
    Finalmente há a questão do planejamento: não planejar significa mais desperdício e menos controle. Para justificar não haver planejamento, os governos tucanos identificam erroneamente o planejamento com a imposição, falta de liberdade ou estado totalitário. Na verdade, a ausência de planejamento que levou ao apagão de energia com FHC e ao apagão da água em São Paulo de hoje. É indispensável para que haja crescimento econômico identificar os setores prioritários, fixar metas e instrumentos de incentivo e de ação e controlar os resultados, principalmente quando os recursos são escassos.
    Não sou profeta, mas não é difícil apresentar os reais desempenhos econômicos do Brasil, havendo um governo tucano, daqui a quatro anos: desemprego maior do que 9,5%, possivelmente atingindo mais de 10%, taxa de juros Selic com piso de 11,5% a.a. e sem limite de teto, Bovespa com volumes médios inferiores a 5 bilhões diários, crescimento econômico, na indústria, negativo no período ou muito próximo a zero, salário mínimo, em relação ao atual, com redução real de 10 a 12%, saldo negativo da balança comercial com dolar na ordem de R$ 2,00 ou menor, e mesmo assim a inflação estará entre 5,5 a 6% na média do período. Tudo isto foi calculado com base nos discursos do candidato tucano e de seus assessores e futuros ministros. Guardem, e se Deus não nos ajudar, me cobrem em 2018.

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