Placar do impeachment mostra jogo indefinido, mas caminho ainda é mais longo para a oposição

Levantamento do DataPersa mostra 242 a favor da cassação de Dilma, 150 contrários e 121 indefinidos

Placar 1

Agora é para valer. Depois de um primeiro ano turbulento do seu segundo mandato, Dilma enfrenta um processo de impeachment, capitaneado por Eduardo Cunha. O processo, é bom lembrar, nada tem a ver com corrupção, mas foi motivada por uma manobra contábil considerada ilegal por seus adversários, as chamadas “pedaladas fiscais”.

Pois bem. Cunha venceu as eleições e a “base aliada” se esfacelou diante de uma crise econômica forte, retroalimentada por essa desarticulação política, num círculo vicioso que nos levou à situação em que nos encontramos hoje. O governo não consegue aprovar seus projetos e não tem força para barrar os da oposição. Terá força para se manter vivo?

O processo de impeachment é decidido pelo Senado. Para o presidente sofrer impedimento, é necessária uma maioria qualificada de pelo menos 2/3 (54) dos 81 senadores, em duas votações. Mas, antes de ir para o Senado, a Câmara decide se o processo vai adiante, usando a mesma regra de maioria qualificada, em dois turnos. Em teoria, portanto, é muito difícil derrubar um presidente. Mas, recentemente, a pressão tem ganhado bastante força, vitaminado pela Operação Lava Jato (que nada tem a ver com o processo de impeachment), incluindo o vazamento de delações, áudios e grampos, além de grandes manifestações de rua, apoio da grande mídia, setores empresariais e a OAB. Tudo isso ajudou a aumentar novamente o apoio popular ao impeachment. O último Datafolha mostra que 68% dos brasileiros são favoráveis . Mas e na Câmara?

O DataPersa fez um levantamento minucioso (de gabinete), mas com grandes limitações (sem entrevistas), sobre a provável inclinação dos deputados com respeito ao seu voto nessa questão, no momento (sempre pode mudar depois). Buscamos as informações nos jornais locais, nacionais, blogs jornalísticos locais, declarações de voto explícitas ou indicações implícitas nas páginas de Facebook e Twitter dos deputados, além do levantamento feito pelo jornalista Fernando Rodrigues (aqui  e aqui), dos deputados que compõem a comissão especial do impeachment e dos mais populares nas redes sociais de lado a lado.

No caso de alguns partidos, como o PSDB, PT e DEM, por exemplo, não foi feita uma apuração individual, posto que há clara posição partidária. Na falta de informação em sites jornalísticos ou oficiais dos congressistas, usamos em último caso também informações do Mapa do Impeachment, do movimento pró-impeachment Vem Pra Rua  (que está bastante desatualizado… assim como este post também estará daqui a alguns dias). Aliás, é digno de nota que um movimento “espontâneo” tenha recursos para colocar um site dedicado, complexo e bem feito no ar, com fotos, artes e tudo, encorajando seus visitantes que se opõem ao governo a pressionar parlamentares indefinidos ou contrários ao impeachment. Quem será que financia? Um movimento supostamente contra a corrupção bem que poderia espontaneamente abrir as contas e dar o exemplo de transparência, não? Mas isso não vem ao caso agora.

Bom, quando não havia indícios para corroborar o que foi marcado no Mapa do Impeachment, deixou-se a posição de voto como “indefinido”.

Placar do impeachment

O resultado mostra que o jogo, ao contrário do que faz parecer o noticiário e a especulação nos mercados financeiros, não está ganho. Para nenhum dos lados.

Placar 2

Sim, os deputados a favor do impeachment são maioria. Mas, hoje, ainda estão longe da maioria qualificada. Eles respondem por 242 dos 513 parlamentares da Câmara. Exatamente 100 a menos do que o necessário para o processo seguir adiante. Já os deputados contrários são 150, ou 22 a menos que o mínimo para garantir que o processo seja sepultado. É bom ressaltar que o ônus está todo do lado dos que querem o impeachment. A meta do lado anti-impeachment, de 172 votos, é apenas uma garantia de que o outro lado jamais conseguirá 342 votos. Mas, o impeachment seria derrotado mesmo se o lado governista não conseguir os 172 votos, portanto que o lado do pró-impeachment não consiga os 342 votos. E isso quer dizer que o impeachment será derrotado?

Bom, não. Ainda tem uma boa parcela de deputados indecisos. Eles são nada menos que 121 congressistas. E eles podem fazer a balança do impeachment pender para um lado ou para o outro. Por um lado, o momento político é favorável para os apoiadores do impeachment, especialmente por conta da Operação Lava Jato, que sempre causa surpresas desagradáveis para o governo a cada nova fase (ainda que partidos da oposição estejam também envolvidos); da mídia, que tem tido êxito em mobilizar a classe média descontente; e da situação econômica, que não melhora diante do impasse político. Por outro lado, existe a matemática contra: o lado pró-impeachment precisa de 82,6% (ou 100) desses 121 votos indecisos. Claro que os votos a favor e contra tampouco estão definidos. Tudo pode mudar até o momento da votação. Mas esse é o placar no momento, segundo as informações de que se dispõe.

Placar 3

É interessante ver que há um forte componente regional na inclinação dos parlamentares. Entre os 150 deputados contrários ao impeachment, 42% são da região Nordeste (região que compõe 29,4% da Câmara). É a região que está “segurando as pontas” para Dilma. Ali também os deputados contrários ao impeachment são maioria (e representam 41,7% dos parlamentares nordestinos da Câmara).

Placar 4 - regiões absoluto

Por outro lado, dos 242 parlamentares favoráveis ao impedimento, 38,8% são sudestinos (ligeiramente maior que a proporção dos deputados do Sudeste na Câmara, de 34,9%). É de onde vem o maior peso absoluto para derrubar a presidente. Visto de outra forma, ainda, a região com a maior proporção de deputados pró-impeachment é o Centro-Oeste (63,4%). No Sul, essa proporção é de 54,5%, e no Sudeste, 52,5%.

Placar 5 - regiões relativo

O “x” da questão, porém, está nos 121 indecisos. Em termos regionais, eles estão distribuídos mais ou menos proporcionalmente, com exceção do Norte, região que tem uma participação mais alta nos indecisos (20,7%) do que na Câmara como um todo (12,7%). Sob outra ótica, 38,5% dos deputados nortistas estão indefinidos, ao passo que, no total, os indefinidos são 23,6% da Câmara.

Partidos

A coisa fica mais interessante quando observamos o voto provável segundo partido. Os partidos que mais tendem a contribuir para o voto pró-impeachment são PSDB        (48), PMDB (26), DEM (24) e PSB (24). Já o que mais tende a dar votos contra o impeachment é o PT (58). Chama a atenção que apenas 16 dos 64 deputados (ou meros 25,0%) do PMDB, partido que chefia 7 ministérios (incluindo Saúde), além da vice-presidência, estão abertamente dispostos a votar a favor do governo do qual fazem parte. Ainda assim, é o segundo partido que mais tende a contribuir com votos, seguido por PCdoB e PP (12 cada um).

Placar 6 - partidos absolutos contra e a favor

Já em termos relativos, os partidos mais unidos a favor do impeachment são DEM, PPS, PSDB, SD (todos com 100%), além de PV (83,3%) e PSB (75%). Vale mencionar que o neófito Rede tende a contribuir com 3 dos seus 5 deputados (ou 60%) a favor do impeachment. Por outro lado, PCdoB, PEN, PSOL e PT tendem a estar 100% contra o impeachment.

Placar 6 - partidos relativos contra e a favor

Mas, como foi dito, o “x” da questão são os indecisos, em tese um voto mais fácil de disputar. Mais de 80% dos indecisos estão em oito partidos: PMDB (22), PP (17), PR (13), PSD (13), PRB (12), PDT (9), PTN (8), PTB (7). Curiosamente, à exceção do PTN, são todos partidos que fazem parte da base do governo e ocupam a chefia de ministérios do governo. Em teoria, o governo precisaria de apenas 22 desses 93 votos indefinidos de deputados partidos da base. Mas, como diria Celso de Barros, na prática a teoria é outra.

Placar 7 - indefinidos

Moral da história: as coisas não estão fáceis para o governo. Mas tampouco estão fáceis para a oposição. O jogo está aberto e, ao contrário do que diz a mídia, nada está definido. Nem um eventual desembarque do PMDB implicará numa derrota certa para o governo – desde que se tenha habilidade para conquistar a fidelidade mais firme de três ou quatro partidos médios (nesse caso, com o PMDB sem cargos, o governo teria poder de barganha) e forjar um novo pacto político que prescinda do PMDB para governar. Por outro lado, nada impede que deputados contra o impeachment virem a casaca e/ou uma maioria acachapante dos indecisos decida pelo impeachment, tendo em vista desdobramentos da Lava Jato, manifestações e pressão da mídia e de lobbies empresariais. Ou nada impede que parlamentares favoráveis mudem de lado ou se abstenham. Mas o “x” da questão, bom, a essa altura vocês já sabem qual é.

Está aberta a temporada da barganha por votos.

 

Bônus: Lista do Janot e a “Bancada do STF”

Para os obstinados que chegaram até aqui, um bônus: o DataPersa  também cruzou os dados das votações segundo duas listas não muito agradáveis para os parlamentares: a Lista do Janot e a chamada “Bancada dos réus”, como cunhou carinhosamente o site Congresso em Foco, para se referir aos deputados (e senadores) que são réus no STF. Ou, como eu prefiro chamar, “Bancada do STF”. Claro, ser réu não significa ser condenado. Mas, afinal, é um elemento a ser analisado, porque, mesmo não se tratando de uma votação sobre questões de corrupção, é sob esse discurso que o voto pró-impeachment está se escorando.

A chamada Lista do Janot contém 22 deputados que atualmente estão em exercício de mandato que foram ou estão sendo investigados pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Desses, 9 (40,9%) tendem a votar a favor do impeachment, 7 contra (31,8%) e 6 (27,3%) estão indefinidos. Essa distribuição é semelhante à proporção geral, mas há relativamente menos deputados favoráveis ao impeachment que o total (47,2%) e mais indecisos (23,6%). Nada muito emocionante. Afinal, são “só” 22 de 513.

Placar 9 - lista do janot e bancada do STF

Interessante mesmo é o comportamento da “Bancada do STF”. Nada menos do que 53 deputados são réus no Supremo. Desses, são a favor do impeachment 25 (47,2%, exatamente a proporção de deputados que são favoráveis na Câmara), enquanto 11 (20,8%, abaixo da média geral, de 29,2%) são contrários, e os indefinidos são 17 (32,1%, acima da média geral de indefinidos, de 23,6%).

Moral da história 2: existe uma forte chance de, sob o signo do combate à corrupção, a presidente ser impedida com a ajuda de votos de deputados que são réus no STF, em votação comandada por um presidente da Câmara que, ele próprio, é réu no STF e uma das estrelas da Lista do Janot (o único que figura nas duas listas… por enquanto).

Anúncios

4 Comentários

Arquivado em Uncategorized

4 Respostas para “Placar do impeachment mostra jogo indefinido, mas caminho ainda é mais longo para a oposição

  1. YONE MOREIRA FERNANDES

    Parabéns pela análise.

  2. Felipe

    Muito bom trabalho

  3. Belíssimo cruzamento de informações. À luta!

  4. Pingback: Impeachment ganha força, mas ainda está longe dos votos necessários | Novas Cartas Persas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s