Em tabelinha, CFM e Globo distorcem informações sobre número de leitos do SUS

Levantamento que mostra queda no entre 2010 e 2015 não leva em conta desativação de manicômios e aumento no número de leitos de ambulatórios
Ontem, terça-feira, 17 de maio, foi Dia Internacional do Conselho Federal de Medicina na Mídia, em especial, na Globo. A informação bombástica: a queda brutal no número de leitos SUS, na ordem de 23.565, entre 2010 entre 2015. Mereceu nada menos do que 3:13 minutos no Jornal Nacional. Além de uma quase onipresença de representantes do impoluto CFM nos telejornais da GloboNews.

O levantamento foi feito pelo CFM está aqui. À primeira vista, é alarmante. Ainda mais quando o presidente da entidade coloca como principal responsável por esse descalabro problemas de “a alarmante escalada da corrupção” e o atual ministro da Saúde, cuja campanha foi financiada pesadamente por planos de saúde privados, atribui o problema a problemas de “gestão”.

O primeiro problema é de ordem jornalística: o “outro lado” da reportagem da Globo, ou seja, o ministério da Saúde, ficou de fora. E isso que o próprio ministro da Saúde falou à reportagem. Mas então como posso dizer que ficou de fora? Ora, a questão aqui é que o atual mandatário da pasta não tem nenhum interesse em (e capacidade de) contra-argumentar, já que o período da “denúncia” do CFM se restringe ao governo anterior (foi até dezembro de 2015). Então foi um “outro lado” maroto, pra inglês ver.

Para ouvir o contraditório, mesmo, só mesmo no pé das reportagens de jornais, onde a burocracia pode dar uma explicação, ou na TV Brasil, que, aliás, segue fazendo um jornalismo bem digno. Inclusive: recomendo. Pois aqui está o outro lado:

Mas antes de nos apressarmos às conclusões, vamos dar um passo atrás e examinar melhor o “problema”, isto é, os dados que o CFM apresentou e causou toda essa comoção. Quando se olha de perto, se vê que a conta que concluiu que havia 23.565 leitos a menos em 2015 do que em 2010 tem alguns furos.

O primeiro, é que há uma omissão importante: a especialidade que mais perdeu leitos foi exatamente a de psiquiatria, nada menos do que 10.803 leitos. E não foi por corrupção, má gestão nem falta de dinheiro. Foi por conta de uma mudança legal e de paradigma no cuidado desses pacientes, que veio com a Política Nacional de Saúde Mental, a partir do Decreto Presidencial nº 7.508 de 2011.

Isso significou a desativação de muitos leitos de internação no período e uma “reorganização do atendimento do que era feito antes nos hospitais para um modelo ambulatorial, baseado nos Caps (centros de atenção psicossocial). Em 2015, diz, havia 2328 centros no país, contra 424 em 2002”, segundo nota do Ministério da Saúde publicada na Folha . Ou seja, devido a essa mudança estrutural, teria sido mais honesto que o levantamento do CFM tivesse excluído da conta os leitos de psiquiatria.

Aliás, o CFM publicou dado semelhante em 2014, coincidentemente, bem na época das eleições, com a mesma omissão, ou melhor, inclusão indevida. O dado, aliás, municiou o então candidato da oposição (que agora é situação) Aécio Neves, que usou e abusou da informação distorcida durante a campanha eleitoral para a Presidência. Na oportunidade, o ministério da Saúde fez a mesma observação, de que 7 mil daqueles 14,7 mil leitos eram de psiquiatria, e que não deveriam entrar naquela conta pelos mesmos motivos de agora. Parece que não entenderam.

Mas voltemos a 2015. Pois bem, vamos excluir da conta, então, os leitos de psiquiatria. Ainda sobrariam 12.764 leitos de internação hospitalar a menos. É muita coisa! Como explicar? Má gestão? Corrupção?

Primeiro, cabe dizer que na mesma nota à imprensa, o Ministério da Saúde contesta o dado de que tenham leitos desativados e afirma, ao contrário, que no período houve aumento de 12,2 mil leitos e que o levantamento da CFM se refere a leitos da rede particular. Bom, essa afirmação vai ficar no ar, porque não foi possível apurar se é verdade ou não. Aliás, cabe essa crítica ao Ministério. É muito difícil o acesso à informação nos sites e plataformas do órgão. No site novo do CNES, onde deveria estar essa informação, é complicado localizar onde está (até agora não achei), e há vários links e botões com bugs etc. O site antigo era feio, mas pelo menos se encontrava o que se desejava (ainda que não fornecesse a informação ano a ano etc). Além disso, a nota à imprensa não está no site do Ministério. Enfim.

Mas, voltando aos 12.764 leitos a menos. A que se deve isso? Em 2014, o próprio Ministério da Saúde deu uma explicação mais convincente que essa de agora, a saber:

“A redução de leitos hospitalares e sua substituição pela atenção ambulatorial ou domiciliar é uma tendência mundial, particularmente em algumas áreas nas quais o avanço da medicina propiciou ou uma redução significativa do tempo de permanência hospitalar, como nas cirurgias realizadas por vídeo, ou que o tratamento seja realizado fora do ambiente hospitalar, em Hospitais-dia, ambulatórios ou em domicílio”

E essa mudança de atenção ambulatorial e domiciliar em detrimento da internação hospitalar não se deu apenas no Brasil, como também em países que estão na vanguarda das políticas de saúde pública gratuita e universal, como o Reino Unido, cujo número de leitos por 100 mil habitantes, entre 2003 e 2012, passou de 3,95 para 2,91 e o Canadá que, entre 2008 e 2010, viu essa taxa cair de 3,4 para 2,7.

E o mais curioso é que o próprio levantamento do CFM mostra tal tendência: ao contrário do que aconteceu com os leitos de internação hospitalar, o número leitos em ambulatórios aumentou em 11.333, no período entre 2010 e 2015, como se vê na parte de baixo da tabela:

leitossus1

Então, resumo da ópera:

– Levantamento aponta queda de 23.565 leitos de internação hospitalar

– Esse número inclui 10.801 psiquiátricos

– Houve aumento de 11.333 leitos ambulatoriais

Noves fora, saldo: -1.431

 

Aí já fica bem menos bombástico, não é mesmo? Isso representaria uma queda de 0,5% do estoque de leitos hospitalares de internação do SUS. E isso porque não estou considerando ainda um eventual aumento da atenção domiciliar (até porque onde achar esse dado?).

Isso posto, não significa que a Saúde do país esteja bem. Ao contrário. Precisa de mais investimento e um orçamento maior, além de melhoria nos mecanismos de controle. Mas esse debate é mais profundo e não pode começar a ser feito com base dados distorcidos e falsas premissas.

he-man

Então, amiguinhos, no episódio de hoje aprendemos que é preciso desconfiar sempre dos dados, das comparações, verificar se há “quebras de série” etc. e também avaliar a intenção dos atores: o CFM é o mesmo que se mobilizou contra a entrada de médicos estrangeiros no país e, assim como outras entidades de classe, tem um viés político-partidário bastante acentuado e, portanto, tem também intenções e interesses políticos. Não é um ator neutro, altruísta e imparcial.

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