Balanço das eleições 2018

Retrospectiva, erros e perspectivas para o campo progressista

Não houve nada de normal nessas eleições gerais brasileiras de 2018.

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Primeiro de tudo, algo pouco comentado (porém fundamental): não havia um candidato do governo. Pelo menos não que se declarasse como tal, mesmo que timidamente. Em 1994 e 1998, era FHC, que venceu. Em 2002, era Serra, que perdeu. Em 2006 era Lula, em 2010 e 2014, Dilma. O candidato governista sempre ajudava a estruturar a polarização. Não desta vez. Os candidatos mais associados a Temer (Alckmin e Meirelles) tiveram desempenho pífio: 6% dos votos válidos, na soma dos dois. De certo modo, o discurso do “Fora PT” ou “PT nunca mais” denotavam que, ironicamente, quem fez as vezes de governo foi… o PT, que foi removido do poder há 2,5 anos.

A segunda anomalia foi o fator Lula. Principal líder de oposição, era ele quem liderava as pesquisas e foi condenado em um processo bastante controverso, para dizer o mínimo. Seu processo foi acelerado na corte de apelação e aí foi preso antes do trânsito em julgado. E aí foi proibido de dar entrevista. E teve seu habeas corpus negado por um juiz que interrompeu suas férias para que Lula não estivesse fora da prisão um minuto sequer. Lula, que foi barrado de conceder entrevista. Em seguida, foi autorizado pelo STF. E foi vetado de novo no mesmo dia, como se sua palavra reportada em um jornal representasse algum tipo de ameaça à segurança nacional. E mesmo assim, mesmo preso, Lula foi escolhido o candidato do Partido dos Trabalhadores. E mesmo assim, mesmo preso liderou as pesquisas até ser oficialmente excluído das disputas, chegando a 45% das intenções válidas, excluindo brancos nulos e indecisos. Era o favorito para ganhar. Sem Lula, o “plano B” Haddad chegava a meros 4%.

A terceira peculiaridade foi a “Estratégia do PT”, derivada do fator Lula. Numa campanha eleitoral curta, o PT, que tinha, em tese, um ativo: o candidato mais popular, campeão de votos. Mas, na prática, como não poderia usá-lo em campo, decidiu se empenhar numa estratégia arriscada: esticar a corda e retardar a oficialização de Haddad ao máximo para manter Lula em evidência e, em seguida, fazer uma campanha para associar Haddad a Lula, para obter uma fração de votos e, com essa transferência de apoio, chegar ao segundo turno. A partir dali, teria três semanas para “vender” o professor Haddad, um novo e moderado político. O risco era enorme: poderia acontecer de a transferência não acontecer – ou acontecer apenas em parte, o que poderia levar a um 2º turno sem um candidato de esquerda, talvez entre Bolsonaro e Marina ou Alckmin. Mas a estratégia, desse ponto de vista, funcionou. Haddad se descolou do bolo de candidatos que estavam empatados em 2º e chegou a flertar com a primeira posição num dado momento.

A quarta aberração foi, claro, o atentado. Algo sem precedentes na história das campanhas eleitorais para presidente. Bolsonaro, felizmente, sobreviveu. E, com isso, resolveu todos os problemas de sua frágil campanha: passou o restante do 1º turno sem ir a debates, foi automaticamente poupado de ataques que geralmente seriam conferidos ao líder da corrida eleitoral, e ficou com a imagem de vítima do “ódio político” (logo quem!), o que também lhe rendeu um bom apoio. Como os adversários não tinham mais condições de atacar o líder, voltaram suas baterias ao segundo colocado, Haddad, enquanto Bolsonaro voava em céu de brigadeiro com seus 26%-28%.

Aí chegou aquela fatídica segunda-feira, 1º de outubro. Sai o Ibope que mostra que Bolsonaro não só não perdeu votos depois de gigantes manifestações feministas, como ele subiu bastante no 1º turno. E, se na sexta-feira ele estava seis pontos atrás de Haddad, na segunda-feira ele estava empatado numericamente. E a partir dali a vaca foi pro brejo.

Bolsonaro fechou o primeiro turno na boca para liquidar a fatura. Só um milagre poderia reverter o jogo. Veio a denúncia (grave) da Folha. Mas, diante da negativa das autoridades de permitir busca e apreensão de equipamentos, não se avançou e ficou por isso mesmo: uma campanha difamatória subterrânea, financiada com dinheiro não contabilizado, de empresas. E tudo certo. A distância estava entre 16 e 18 pontos. Com essa vantagem, Bolsonaro se recusou a ir a qualquer debate, não dava coletiva à imprensa. Ficou em casa, mesmo depois que obteve alta médica e liberação para fazer campanha. Quando a margem diminuiu um pouco, os eleitores opositores a Bolsonaro começaram a despertar e foram pra rua. Mas aí já era a última semana. No fim, a vantagem foi de 10 pontos para o candidato neofascista.

A ideia de que o PT era um partido inerentemente sujo, corrupto, de que Haddad era apenas um fantoche de um condenado por corrupção… colou. Bolsonaro não precisou nem explicar seu programa. Nem seus recuos, suas ambiguidades, suas declarações inaceitáveis, em condições normais de temperatura e pressão lhe causavam dano. Bastava não ser o PT. Ele será o presidente sem ter passado pelo crivo de um debate com seu adversário.

Erros

É difícil falar em erros numa campanha nessas circunstâncias, com o juiz ajudando o adversário (juiz que depois entra na comissão técnica do time vencedor), e o adversário jogando dopado. Mas, com TSE, com tudo, relevando todas as anormalidades da disputa, houve erros da campanha de Haddad que precisam ser admitidos. E não foi (exatamente) a tal “Estratégia do PT”. Essa, como disse, deu certo. Em parte.

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Vejo cinco erros na campanha: primeiro, foi pouco explorado o tema da corrupção. Focou-se no tema do emprego, apostando que os brasileiros, depois de quatro anos de estagnação e recessão, estariam mais preocupados com isso do que com corrupção. Erraram. Estão preocupados com ambos. E Haddad e o próprio PT poderiam ter disputado com mais ênfase essa pauta. Haddad, inclusive, tem aquela narrativa (de fato) ótima do modo como ele desbaratou a máfia do ISS, colocando grana do próprio bolso para alugar a sala da força-tarefa, além dos argumentos mais “racionais” como ter criado a CGM, de ter sancionado a Lei de Acesso à Informação, a Lei Anticorrupção, de ter dado autonomia ao Ministério Público e à PF…

Nada disso entrou na campanha. A campanha poderia ter criado fatos de campanha, como lançar documentos de compromissos com propostas, ou endossar medidas do Unidos Contra a Corrupção. Era preciso reforçar a imagem de que Haddad era íntegro, ficha-limpa; seria preciso, para isso, reconhecer erros que alguns de seus filiados cometeram, mesmo que poupando seu principal cabo eleitoral, para então qualificar o debate. Ao menos no segundo turno seria preciso fazer esse sacrifício, para passar a mensagem aos eleitores não petistas de que o partido está se renovando e seus quadros de agora não iriam cometer os erros dos antecessores – e, mais do que isso, iriam criar regras para tentar dificultar ou impedir que tais práticas voltassem a acontecer (porque são, também, o partido que mais fez para combater a corrupção etc).

O segundo erro foi em não colocar a crise na campanha. Era só esperança, só retrovisor. Teria sido importante colocar a crise na campanha, fazendo aí o mea culpa, inclusive para controlar a narrativa dominante de que foi tudo culpa do PT, antes de dar esperança de que tudo vai ficar melhor. Quem assistia à propaganda do PT, parecia que era outra realidade, era um mundo cor-de-rosa (o que reforçava a ideia de que era o PT o governo). A propaganda não dialogava com a realidade das pessoas. Faltou essa conexão.

O terceiro erro foi de não ter feito a devida contraposição ao projeto de segurança pública de Bolsonaro. Com a ascensão de Bolsonaro no fim do 1º turno, a pauta da segurança pública deveria ter ganhado mais centralidade.

O quarto erro foi não ter feito uma associação melhor de Bolsonaro à Temer e à continuidade. Faltou atacar melhor esse aspecto, ainda que tenha sido tratado em algumas peças. Faltou associar Bolsonaro ao PP. Faltou falar dos aliados de Bolsonaro, já que presidente não governa sozinho.

E por fim, claro, o erro fatal: não ter estruturado uma campanha nas redes sociais – em especial no Whatsapp – a tempo. Falha do partido mais do que da campanha. Foi apenas na reta final do 1º turno que a campanha despertou tanto para engajar e disseminar conteúdo, quando para fazer contra-informação, isto é, tentar barrar a propagação da campanha difamatória e de notícias falsas vinda dos apoiadores do adversário. O outro lado já contava com uma vasta rede de grupos de apoiadores ao menos dois anos antes de a corrida eleitoral sequer começar.

Claro que não foram esses erros que levaram à derrota, mas se não tivessem sido cometidos, talvez o placar seria mais apertado.

E agora? O que fazer?

No 2º turno, Haddad cresceu muito politicamente. Se, no 1º turno ele era só um preposto, ou um “poste” de Lula, como falam seus detratores, ao passo que Ciro tinha cativado novos adeptos, no 2º turno a coisa se inverteu. Haddad conquistou um eleitorado que não era petista e terminou a corrida maior do que entrou. O problema é que ele foi, também, alvo de uma campanha difamatória muito intensa e pesada – e sua rejeição também subiu.

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Ao PT, resta saber se vai insistir com um candidato que foi derrotado mais uma vez, mas que se tornou conhecido e apreciado por muitos eleitores, ou se vai tentar construir seu projeto em torno de outra liderança. Há a insistência em Lula, especialmente depois da oficialização de Moro como ministro de Bolsonaro. Mas Lula segue preso, ainda responde a outros processos, e não deverá estar apto para disputar outra eleição enquanto estiver vivo. Outra possibilidade é Jaques Wagner, que terá 8 anos de mandato como senador, depois de ter sido eleito, reeleito governador; e ter elegido e reelegido seu sucessor na Bahia. Seja como for, uma das lições dessas eleições é que é preciso não demorar muito para se decidir, pois para se contrapor ao “Mito” é preciso criar outra liderança igualmente forte e que entusiasme, e que seja possível de construir uma rede popular de apoios – e isso leva tempo.

Meu palpite é que Haddad deveria ser essa liderança. Não vejo outra dentro do PT que seja capaz de dar um novo rumo ao partido, sem romper com seu legado lulista.

Para além do PT, há duas outras lideranças no campo da esquerda: Boulos e Ciro. Boulos, assim como Haddad, é um que saiu muito maior do que entrou, apesar do fraco desempenho eleitoral. Mas ele foi importante para marcar posições, teve desempenho destacado nos debates e, no 2º turno, foi para a linha de frente para apoiar Haddad e evitar um retrocesso democrático irreversível. Porém, sua base de apoio e seu desempenho eleitoral não o qualificam para disputar nacionalmente a liderança do campo progressista. Poderá, no entanto, ser, novamente, o candidato pessolista, que teve êxito em sua estratégia de fortalecer sua base no Legislativo.

Já Ciro teve um ótimo desempenho no 1º turno, menos em termos de votos, mas em termos de construção de sua liderança, imagem e sobretudo pautando o debate. Infelizmente, porém, ele errou e errou feio ao abandonar o 2º turno. Ele tinha tudo para ser o que Boulos foi, e entusiasmar o seu eleitor. Muito provavelmente não teria sido suficiente para virar o jogo, mas seria para ganhar o respeito e a admiração do eleitorado de Haddad. Nesse caso, ele poderia se tornar o grande líder da oposição à esquerda e construir sua candidatura para 2022, com uma frente ampla de esquerda – desta vez sem um petista à frente, mas sem prescindir do PT. Teria sido o líder “natural” da esquerda para 2022…

Mas optou por um “apoio crítico” e foi-se embora. Agora o país está nas mãos de um fascista e ele não fez nada para impedir. Agora ele é desprezado até mesmo por parte de seu próprio eleitorado, mas também pelos eleitores do PT, do PSOL e outros. Agora só os mais aguerridos seguidores relevam essa atitude. Ainda mais depois das entrevistas com tom duro e beligerante contra o PT. E segue queimando essa ponte em cada entrevista, ao mesmo tempo que, agora, atua para isolar o PT.

Dificilmente ele vai conseguir um espaço agora, dado que Bolsonaro deve estar em um dos polos e o outro polo deve ser ocupado por um expoente de centro-esquerda, muito provavelmente o próprio Haddad, se ele topar encarar mais essa bucha. A nova liderança da (centro-)esquerda não precisa ser do PT, mas não pode prescindir de seu apoio.

Flávio Dino é outra liderança promissora, mas lhe falta uma marca que o qualifique nacionalmente, como, por exemplo, Eduardo Campos tinha em 2014. Ainda no PCdoB, temos Manuela D’Avila, que elevou sua estatura política ao longo dessa campanha (e pré-campanha), mas que também precisa de uma marca, como a que teria à frente de uma prefeitura importante, governo ou ministério, para elevá-la ao patamar dos demais.

E tem ainda Marina, já fora do campo da esquerda, que teve um desempenho melancólico, demorou ao apoiar Haddad no 2º turno, porém, desde que o fez, cresceu e começou a fazer o que deveria ter feito desde 2014: oposição diária ao governo. Está indo à rua, gravando vídeos com militantes, contra os futuros ataques ao Meio Ambiente. É preciso ir além disso para se recuperar. É preciso fazer uma crítica forte e sistemática aos diversos campos de atuação do governo, em particular a economia, mas também educação, direitos humanos etc. Marina não está (ainda) em posição de liderar o centro, pela fragilidade de seu partido e sua base social, mas pode voltar a ser uma liderança importante.

Outra questão, para além da liderança, é pensar em 2020. A esquerda precisa recuperar grandes cidades. É a partir daí a base para a vitória em 2022 –  e o celeiro de novas lideranças. A frente de esquerda do Congresso deveria se transformar numa frente eleitoral. Manuela D’Ávila, outra que cumpriu um excelente papel, deveria ser a candidata da frente de esquerda em Porto Alegre. Áurea Carolina em Belo Horizonte. Freixo no Rio. Marília em Recife. Alice Portugal em Salvador. Juliana Cardoso em São Paulo. Edmilson em Belém. Por isso, não só a frente não pode prescindir do PT, como tem que ser até mais ampla, incluir, por exemplo, o PSOL, que tradicionalmente não se alia com partidos mais moderados… talvez até incluir a esquerda da Rede.

A união da esquerda deve ser ampla, pois o desafio imposto pela vitória de Bolsonaro assim exige. E não pode se dar apenas no Congresso. Tem que se dar nas cidades, nas lutas cotidianas. Infelizmente, porém, há forças que estão atuando para dividir o campo da esquerda, buscando sobretudo alijar o PT, e forçando uma disputa extemporânea sobre quem deve “liderar”.

O partido recuperou seu apoio histórico de 22% das preferências nacionais, conseguiu o governo de 4 Estados, além de ter eleito a maior bancada na Câmara (56 deputados). É o único partido que chegou ao 2º turno nas últimas 5 eleições, perdendo apenas nesta última vez. Uma frente de esquerda não pode prescindir do maior partido de esquerda do país. Mais ainda: o PT é o que está melhor posicionado para liderar essa frente, seja no Congresso, seja fora dele. Se não foi o grande vitorioso das eleições, não foi tampouco o grande derrotado (spoiler: foi o PSDB).

Isso não significa que o PT deva ser sempre o partido que lidera a esquerda. Não. Mas a alternância da hegemonia não se dá pedindo por favor. Se dá na disputa. O PSDB não pediu licença para o PMDB para liderar a direita entre 1994 e 2014. O PSL não pediu para o PSDB deixar de lançar candidato em 2018 para renovar a direita. Pode ser que no futuro outro partido assuma a hegemonia do campo da esquerda e substitua o PT. Mas, até agora, não há nenhum líder ou partido de esquerda que tivesse se credenciado para tal.

Tampouco significa que o PT não tenha que fazer sua crítica sobre suas práticas, sobre como mudar sua imagem de partido corrupto e perdulário e, principalmente, sobre como enfrentar o antipetismo (e não os antipetistas), que contamina a própria esquerda como um todo. O PT precisa urgentemente tratar de reverter sua imagem – o que não é só uma tarefa de marketing: vai exigir sacrifícios e uma reflexão sobre qual é a agenda do partido para o combate à corrupção – e como comunica-la.

De todo modo, pensar em liderança de frente de esquerda na atual conjuntura é um pouco ridículo. O outro lado deverá ter uma confortável maioria legislativa, além de um respaldo do judiciário de alto a baixo, pode e vai fazer grandes estragos. Eles terão acesso a recursos financeiros, humanos e materiais que jamais tiveram ao longo da campanha e antes disso também. Incluindo apoio da mídia e de setores do capital que não tinham aderido ainda.

Mas eles não são onipotentes. Podem e vão bater cabeça. Estão girando muitos pratos juntos, mas podem não conseguir equilibrar toda essa mudança de uma vez. A esquerda tem que estar bem posicionada para ferir o projeto fascista quando esses momentos chegarem. E isso só vai poder acontecer se a oposição, que já está em franca minoria, se unir. Mesmo que, nas próximas eleições, cada um siga seu próprio rumo.

O momento agora é de redução de danos, de apertar os cintos para 4 anos de muita turbulência, ataques e retrocessos. Pensar em 2022 é uma tolice.

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1 comentário

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Uma resposta para “Balanço das eleições 2018

  1. Daniel

    Por que Manuela precisaria de uma experiência no executivo pra chegar ao patamar de Boulos? Ela tem 4 mandatos de muito êxito, enquanto ele nunca foi eleito. Ela já é uma grande líder da esquerda brasileira.

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