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11 propostas para uma Reforma Política Maximalista: #9 Ampliar mecanismos de fidelidade partidária

A fidelidade partidária pode ser definida, de modo geral, como o “cumprimento de compromisso de lealdade, como programa do partido político e de obrigações assumidas por seus componentes”. Apesar de termos um sistema de voto nominal para eleger deputados e vereadores, o voto é, sobretudo, para o partido. É graças ao voto no partido que a ampla maioria dos deputados e vereadores consegue se eleger (e não há nada de errado nisso). E, no nosso sistema pluripartidário, para que o chefe de Executivo tenha maioria no Legislativo, geralmente ele precisa fazer alianças com outros partidos (e dividir o poder em contrapartida). Num mundo ideal, as alianças deveriam ser feitas com base em afinidade de programa numa negociação em que as partes, eventualmente, façam concessões aqui e ali em pontos não essenciais (se houvesse concordância absoluta, não seriam partidos distintos, não é mesmo?).

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O problema é que, na prática, a teoria é outra e as negociações são muito custosas para o Executivo, em especial quando há crise econômica ou uma matéria impopular está nos planos do Executivo para ser votada pelos parlamentares. Não raro a negociação se dá no plano pessoal, com cada deputado ou com cada grupo intrapartidário, envolvendo negociação de nomeações e emendas parlamentares.

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Mecanismos de fidelidade partidária são adotados no mundo todo para garantir a governabilidade e diminuir os custos das negociações dos governos. Uma possibilidade é instituir regras mais rígidas de disciplina partidária aqui, impondo, por exemplo, que, em caso de votação de Medidas Provisórias ou/e Projetos de Emenda Constitucional, as bancadas partidárias devem votar em bloco, após votação interna (e aberta) da bancada.

Uma outra possibilidade é de obrigar que a aliança entre partidos da base dos governos seja formalizada, nos termos de um documento-compromisso, com uma plataforma legislativa concreta, específica e de princípios gerais. Ao assinar esse documento, que será protocolado formalmente ao presidente da Câmara, o partido aliado, por meio do líder de sua bancada, se compromete a votar em bloco em projetos de lei contemplados no documento-compromisso que selou a aliança.

Nesse caso, o líder do governo poderá invocar essa cláusula de fidelidade se houve entendimento que se trata uma matéria do documento-compromisso. Caso algum partido acredite que esse instrumento não tem cabimento naquela dada votação, ele poderá apelar ao Judiciário.  Por fim, caso algum deputado decida, mesmo assim, votar contra uma matéria desse documento pactuado, ele estará sujeito à perda de mandato, mas poderá apelar ao Judiciário para se defender. A bancada pode, também, decidir romper com o governo e se retirar do compromisso, se a maioria assim o decidir. Qualquer deputado pode pedir um “voto de desconfiança” para sair do governo ou na sua  própria liderança de bancada.

Outra possibilidade de manter o controle social sobre os mandatos é empoderar os partidos: sempre que a direção partidária decidir que a bancada deve fechar questão numa determinada matéria. Mas ela terá autonomia para decidir o encaminhamento da bancada. Trata-se de uma maneira de manter os mandatos sob algum escrutínio, mas com um certo grau de autonomia, e também de responsabilização dos próprios partidos (o que seria ainda melhor se houver uma reforma partidária que deixe os partidos mais permeáveis à participação e que dê mais transparência às agremiações).

Os deputados, senadores ou vereadores que votarem contra a maioria da bancada de seu partido perderiam sumariamente seus mandatos, caso o partido entrasse com o pedido na Justiça. Com a perda do mandato por infidelidade partidária, assumiriam os seguintes da lista (ou o suplente, no caso do Senado). Os parlamentares teriam sua autonomia preservada em diversas atividades parlamentares (e em votações que não fossem exigida fidelidade partidária) e na própria deliberação do fechamento da questão. Seria uma maneira de reforçar a identidade partidária e também a ligação mais orgânica entre partido e mandatários. É uma das maneiras de reforçar o partido: não é só dando-lhes mais recursos e mais cadeiras, mas fazendo com que tenham mais coerência ideológica interna quando ocupam mandatos representativos.

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A questão da fidelidade partidária não afeta só a governabilidade, mas também afeta a qualidade da representação. Muitas vezes, ao contrário do que se pensa, o voto é, sim, ideológico e partidário. E há vezes que o político decide mudar de partido, mesmo tendo sido eleito graças ao empenho de seus militantes e voto de seus eleitores. Uma mudança de partido é grave em particular para o caso de senadores, que têm um mandato de 8 anos.  No caso dos deputados e vereadores, salvo quando o parlamentar migra para um partido recém-criado, essa questão é equacionada: o mandato é do partido. Mas não para o Senado (graças a uma decisão equivocada do STF). Com essa decisão, só em março de 2016, no espaço de seis meses, dez senadores tinham trocado de partido, segundo levantamento do Congresso em Foco. Mais recentemente, outros cinco senadores mudaram de partido e, depois, outros dois mudaram de agremiação para se juntarem ao novo-velho partido Podemos. Isso sem falar da senadora Marta Suplicy, que trocou o PT pelo PMDB.

Assim, proponho que, se um senador eleito muda de partido durante seu mandato (que é o mais longo de todos os cargos eletivos), ele terá de se submeter a um referendo e manterá seu cargo, já no novo partido, se os eleitores assim decidirem. Esse “referendo revogatório” limitado poderia ser feito junto com eleições locais ou gerais – e poderia abrir a possibilidade, apenas no último ano de seu mandato, de abrir “janela” para que o político mude de partido sem que seja submetido a referendo.

Caso contrário, o partido ao qual era filiado quando da eleição poderá requerer seu mandato e o suplente assume. Seria um mecanismo para aumentar o custo de mudanças oportunistas de partido. Apesar do senso comum, como disse, muitas vezes o eleitor vota no partido e não na pessoa. Quando um político troca de partido (e mantem-se no cargo), é justo que o eleitor seja consultado, especialmente quando há uma grande inflexão ideológica.

Haverá sempre um trade-off entre autonomia parlamentar e disciplina partidária. Ambos são importantes, o desafio é achar um equilíbrio.

Leia as outras Propostas para uma Reforma Política Maximalista

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11 propostas para uma Reforma Política Maximalista: #5 reforma partidária

Um dos grandes nós de nosso sistema é a percepção de que os partidos são pouco representativos. Em parte, isso deriva da estrutura dessas organizações, que são as únicas capazes de disputar cargos públicos, e que recebem recursos públicos e lidam com políticas públicas – mas são percebidos pela população como um mundo à parte. Pior: há oito anos seguidos, os partidos vem sendo a instituição com a menor taxa de confiança da população, segundo a pesquisa ICS do Ibope. E, em 2016, atingiu a marca de 18% (só melhor que a do ano anterior, 17%), quando a desconfiança foi superada pela Presidência da República (que caiu de 30% para 14%, atingindo não só a pior marca da Presidência desde 2009, mas superando a desconfiança popular de qualquer instituição em qualquer ano da pesquisa, mas isso é outra história).

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Frente a esse quadro, costumam apresentam três propostas para “solucionar” o problema:

  1. cláusula de barreira (como se simplesmente aumentar o número de cadeiras e fundo partidário dos partidos médios e grandes os tornasse melhores; ou, ainda, como se barrar partidos novos programáticos ou fisiológicos ajudasse);
  2.  Implantação do sistema “distrital” (já expliquei aqui por que eu acho que seria uma má ideia); e
  3. permitir candidaturas “avulsas” sem partido (movimento que começa a ganhar força, embora tenha poucas chances de prosperar). Outro caminho totalmente equivocado: politica é um projeto coletivo, ninguém é (ou ninguém deveria ser) candidato de si mesmo. Partidos servem justamente para acolher essa construção coletiva. É difícil, exige escutar o outro, exige disputar, convencer, conceder. Política não é o bloco do eu sozinho. Partidos servem pra organizar o debate, dar coerência ideológica a agendas parciais que, de outro modo, estariam dispersas. E também servem de referência programática e ideológica ao eleitor. E se não estão servindo a esses propósitos, aí é o caso de reformar o sistema para torna os partidos mais representativos e mais abertos, e não solapar e abandonar a forma partido como um todo.

De pouco adianta mudar o sistema eleitoral se os partidos seguem sendo organizações pouco permeáveis aos cidadãos e controlados por dirigentes que inspiram pouca confiança. Mudar a forma como os partidos se financiam (como propomos aqui e aqui) ajuda, e é um passo fundamental.

Mas é preciso pensar em mudanças específicas para o funcionamento dessa instituição fundamental de todas as democracias representativas. Um caminho que parece promissor é o proposto por Humberto Laudares, em artigo publicado no jornal online Nexo. Para começar, ele defende que sejam adotados para partidos políticos critérios e instrumentos de transparência como os estabelecidos na Lei de Acesso à Informação (LAI).

Vídeo da campanha do Movimento Transparência Partidária

Nada mais justo. Afinal, partidos políticos recebem recursos públicos. Nada mais justo que eles se sujeitem ao controle social e a regras de transparência de um regime republicano. A LAI estabelece uma série de regras para as três esferas do poder público, e para os três poderes, sobre como informações públicas devem estar dispostas ao cidadão, seja por meio de canais de pedido de informação, seja por meio da divulgação ativa de informações públicas (como Orçamento, contratos, licitações). Mas no Brasil os partidos, que são pessoas jurídicas de direito privado, são verdadeiras caixas-pretas. No Chile, conta Laudares, depois de um grande escândalo de corrupção, os partidos passaram, na prática, a ser pessoa jurídica de direito público: os cargos diretivos passaram a ser preenchidos por eleições diretas de militantes e os partidos foram submetidos a regras de transparência e acesso à informação.

Outra mudança da reforma partidária chilena foi a exigência de recadastramento nacional de militantes para que recebessem recursos do fundo partidário. Exigir, como contrapartida ao acesso a fundos públicos, que partidos se submetam a regras de democracia interna e a um tipo específico de Lei de Transparência e Acesso à Informação (inclusive publicando em seus sites, periodicamente, informações definidas em lei, como balanços mensais, organogramas, contas eleitorais; lista de bens de dirigentes etc.) pode ajudar a melhorar a qualidade dos partidos que temos.Transparência partidária

Além disso, outra condição para partidos acessarem recursos do fundo partidário seria a exigência de primárias e eleições diretas tanto para cargos majoritários (executivo e senador) quanto para a composição e ordem das listas partidárias das eleições proporcionais (deputado federal, deputado estadual e vereador). Democratizar os partidos, tornando-os mais transparentes e permeáveis à participação de seus militantes, pode ser um passo importante para melhorar tanto a falta de representatividade dos partidos quanto a falta de confiança popular nessa instituição.

A plataforma Mudamos, um aplicativo de coleta de assinaturas eletrônicas para transformar propostas (algumas das quais eu discordo, como permitir candidatura avulsa, sem partido, mas outras bem interessantes) em projeto de lei de iniciativa popular, incluiu uma proposta do Movimento Transparência Partidária para aumentar a transparência dos partidos para tentar ser discutida no Congresso.

A solução para melhorar a política não é nem “reforçando” os partidos que aí estão em detrimento do voto nos novos (e antigos) partidos programáticos, e nem tampouco incentivar o abandono dos partidos em favor de candidaturas de si mesmo, aumentando ainda mais o personalismo, aprofundando a crise dos partidos e a incoerência ideológica na política. Ao contrário: precisamos de partidos mais fortes, sim, mais a partir do aumento do engajamento cidadão e da confiança da população dessa instituição fundamental das democracias participativas. Aumentar a transparência partidária e torná-los mais permeáveis à participação são passos importantes nessa direção.

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No ano de contestação do poder e desejo de mudança, identificação com partidos da oposição segue baixa

Crise de representatividade reverte ascensão de março do PT, mas agremiação lidera com folga

“O país passa por um momento de crise de representatividade”. Quem nunca ouviu essa antes? Mesmo sem nenhum tipo de estudo rigoroso, “especialistas”, jornalistas e cervejeiros são unânimes no diagnóstico. O pior é que, apesar da falta completa de embasamento empírico, é muito possível que isso seja de fato verdade. Vamos, então, dar alguma consistência ao senso comum.

Primeiramente, o “voto negativo”, isto é, o voto em branco, nulo ou abstenções, não está aumentando nos últimos anos. De fato, o pico da crise de representatividade, por essa medição, teria acontecido em 1998, um ano de crise econômica forte, quando 40% dos eleitores aptos não votaram para nenhum candidato no 1º turno da eleição presidencial. Já nos últimos três pleitos para presidente, esse número cai para um pouco mais de 25% em média. Isto é, na últimas três eleições presidenciais, cerca de 75% das pessoas aceitaram votar e ser representados por algum político ou partido.

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Como a obrigatoriedade do voto pode encobrir o descontentamento com o sistema político e os eleitores podem estar votando em pessoas e não em partidos na eleição para presidente, melhor recorrer a outro tipo de informação. A partir da compilação de dados de identificação partidária, registrados nas pesquisas de opinião pública do Datafolha, temos uma série de constatações que podem nos ajudar a entender mais sobre essa tal “crise de representatividade”:

1)      A primeira constatação: o quadro de crise de representatividade é real. Hoje, cerca de 60% do eleitorado brasileiro não se identifica com nenhum partido (ou político). O percentual é o maior desde dezembro de 2004, início da série histórica. Mas a preponderância dessa “identificação negativa” não é novidade: a proporção de eleitores sem preferência partidária superou 50% em quase todo o período do levantamento, com exceção de certos meses de 2010 e março de 2013. Ou seja, não é de hoje que os partidos são pouco representativos.

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2)      Passada essa constatação mais óbvia e vendo o desempenho de cada partido, o segundo (e igualmente óbvio) elemento é que durante todo o período o PT tem sido o partido com maior identificação partidária, com média de 22%. O pior período para o partido não aconteceu durante as Manifestações de Junho, mas no auge do escândalo do chamado “mensalão”, em 2006, quando apenas 15,9% dos eleitores disseram preferir o PT.

3)      A terceira e mais interessante constatação é de que a identificação partidária com o PT atingiu seu valor mais alto não durante os “anos Lula”, que saiu do cargo com mais de 80% de aprovação, mas durante os  “anos Dilma”, atingindo picos de 31% e 30% em abril de 2012 e março de 2013, respectivamente. Isso sugere que, a alta popularidade de Lula não se traduziu em identificação com o PT, provavelmente por conta da relação que tinha com o eleitorado, de forma mais direta, e do tipo de liderança que exercia (mais carismática e menos “institucional-partidária”). Já Dilma, apesar de não ser militante histórica do partido, talvez passasse a imagem de uma portadora de um certo “programa”, e, assim, uma parte maior de sua popularidade teria favorecido um aumento da identificação com o PT. Bom tema para pesquisas qualitativas.

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4)      O quarto aspecto interessante é que antes mesmo das Manifestações de Junho, a identificação com o PT já apresentava sinais de forte desgaste, caindo de 30% em março, para 23% no começo de junho e 19% no final do mês. Desde então, a identificação petista manteve-se no mesmo patamar, oscilando entre 18% e 21%.

5)      Isso significa um fator preocupante para o PT: o patamar de identificação partidária com o partido, de 20% desde junho, não aumentou junto com a recuperação da popularidade da presidente – embora as duas coisas estivessem muito correlacionadas  desde que Dilma assumiu. Parece que, novamente com Dilma, parece estar havendo um descolamento da presidente com o partido, tal como aconteceu com Lula, embora não haja nenhum novo escândalo de corrupção que justifique tal movimento. Outro bom tema para pesquisas futuras…

6)      A sexta constatação é que apesar da “crise de representatividade” atual, do forte “desejo de mudança” e queda da identificação com o partido que está no poder, a preferência do eleitor com os partidos de oposição permaneceu praticamente inalterada e extremamente baixa. A identificação com PSDB, principal opositor à direita, oscilou, em 2013, entre 5% e 6%. Desempenho similar ao do PMDB (aliado pero no mucho). Desempenho baixo, considerando que são dois dos principais partidos do país, que já elegeram presidentes da República e que controlam 8 e 5 governos estaduais e 9% e 15% dos acentos na Câmara dos Deputados, respectivamente.

7)      Já o PSB, que pretende ser, em 2014, o principal partido de oposição, a situação é pior. O PSB vem oscilando “traço” e 1% ao longo dos últimos anos. Seu “pico” foi em outubro deste ano, quando chegou a 2%. Outros partidos também estão em situação semelhante. O “destaque” entre os nanicos é o PV, cuja preferência nos últimos 4 anos oscila entre 1% e 3% do eleitorado.

De certa forma, o cenário atual de negação da política atual dá menos perspectiva para a oposição atual. Mas dá alguma perspectiva para a futura “Rede Sustentabilidade”, seja se e como isso vá se dar: há espaço para um novo partido (dada a falta de identificação com os atuais partidos) e a pauta ambiental parece ter apelo para parte do eleitorado (vide a alta preferência partidária para o PV).

Também dá alguma esperança para o PT: de um lado, a intensa cobertura do julgamento da ação panal 470 não reduziu a preferência do eleitorado, e por outro seu nível de identificação partidária conheceu um novo “teto”, bem mais alto, em 2013. Dependendo das respostas do governo às manifestações, ele pode ser alcançado de novo. O desafio, agora, porém, é maior: é o de “colar” de volta o programa do partido nas ações da presidente – e torcer para que ela siga recuperando sua popularidade.

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O jogo de 7 erros de Campos

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A última semana de setembro e primeira semana de outubro foram (e têm sido) decisivas para compor o quadro eleitoral para a disputa presidencial no Brasil em 2014.

O primeiro passo para a composição do tabuleiro foi dado por Eduardo Campos, presidente do PSB, que decidiu sair do governo, a pouco mais de um ano antes de o mandato de Dilma terminar.

Campos já vinha realizando críticas abertas ao governo, mesmo fazendo parte de sua base de apoio, o que sugeria sua intenção de disputar a cadeira de Dilma no ano que vem.  Agora, então, Campos fica numa posição muito mais confortável para atuar e construir sua candidatura. E muito provavelmente atinge o ponto de não retorno. Será quase impossível, agora, que ele tenha condições políticas de voltar a apoiar o governo Dilma em sua tentativa de reeleição. Agora, para Campos, é tampar o nariz e seguir com a escolha. Não há mais espaços para dissimulações, ambiguidades e barganhas.

Sua decisão não foi apressada, mas foi.

De um lado, ele esperou pacientemente por quase um ano, em meio a muita especulação, antes de agir. E agiu mal.

Por outro lado, sua ânsia por chegar à Presidência, no entanto, o fez queimar etapas. Uma candidatura de um líder de um Estado pequeno e fora do eixo Rio-São Paulo-Minas já seria de difícil sustentação. Mas ainda pode ser pior. Ao sair do governo para se candidatar, Campos comete alguns erros políticos que podem ter implicações ruins para ele e para o PSB:

  1. Em nenhum momento as intenções de voto para Campos atingiram dois dígitos. Ao contrário. A decisão de Campos de sair do governo (para se lançar à Presidência) acontece no momento em que sua força eleitoral está em declínio, em 4% segundo o Ibope. Isso não seria um problema se Campos tivesse algum tipo de “trunfo” na manga, como Dilma em 2010, para colocá-lo na mídia (se ele fosse, por exemplo, o principal ministro e candidato de um presidente altamente popular). Ou então se ele fosse um nome de consenso da oposição em um cenário de crise econômica aguda. Ou se seu partido tivesse muito tempo de TV para torná-lo conhecido; ou se fosse capaz de atrair grandes partidos para uma coligação eleitoral para fazer uma campanha extremamente bem-feita. Campos parece não se encaixar em nenhum desses casos. Campos deve atrair partidos pequenos e desconhecidos para sua empreitada. O resultado nesse caso é um candidato pequeno e desconhecido, do começo ao fim da campanha.
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  2. A segunda dificuldade da candidatura Campos é que ele próprio fez parte do governo Lula. Mais: seu partido não só fez parte do governo nos dois mandatos de Lula, como fazia parte do governo sob Dilma, totalizando quase 11 anos de apoio. Difícil justificar ao eleitor porque justo agora o partido decide fazer oposição. Depois de mensalão em 2005, depois da recessão de 2009, depois do fim do governo Lula em 2010. Nenhuma dessas “janelas” de saída foi usada como pretexto para migrar para a oposição e disputar as eleições. O PSB permaneceu como fiel aliado, e ocupou cargos no governo sem nenhum desconforto.

    Mais do que a mera questão de coerência, essa esquizofrenia do PSB (partido de oposição ao próprio governo do qual fez parte) também impõe uma dificuldade na formulação do discurso. Afinal, o PSB é oposição ou governo? O Partido Socialista Brasileiro vai fazer um discurso efetivamente socialista, à esquerda do PT? É efetivamente onde se situa o partido? Existe espaço para uma candidatura competitiva à esquerda do PT? De fato, a sinalização discursiva de Campos sinaliza que será um candidato à direita do PT. Seu esforço tem sido o de atrair empresários, de um lado, e políticos da direita, como os Bornhausen e Heráclito Fortes, de outro. As questões que seguem são as mesmas também no outro campo do espectro: existe espaço na centro-direita para candidatos do PSB (Rede) e PSDB? Qual a diferença entre os discursos? Qual os projetos que justificam suas candidaturas? O problema aqui é maior para o PSB que para o PSDB: ao sair do governo, o PSB rejeita o lulismo e o perde como discurso e projeto. O legado de Lula já não poderá mais ser reivindicado pelo PSB.
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  3. A terceira dificuldade é justamente o “fator Lula”. Em que pese a falta de densidade eleitoral, Campos tem tido êxito político em seu próprio Estado como governador. Certamente a maior parte da (pequena) intenção de voto que apresenta até agora vem de Pernambuco. O problema é que essa pequena intenção pode se reduzir ainda mais quando a campanha começar, e por um motivo simples: o fator Lula. Lula é tão amado em Pernambuco quanto Campos. E sempre teve espaço para ambos nos corações e mentes pernambucanas porque os dois vinham trabalhado do mesmo lado. Agora, quando virem ambos em lados opostos, com Lula no palanque de Dilma, e Campos criticando a candidata de Lula, vai se formar um nó na cabeça do eleitor. Nó que, num segundo momento, deve dividir o eleitorado de Campos no Estado, reduzindo a nível nacional o pouco a quase nada. Hoje, as pesquisas que mostram Campos com 4% não captam o “fator Lula”.Lula e campos
  4. Sua decisão não poderia ter pior timing: a saída do PSB do governo acontece quando a popularidade de Dilma e sua intenção de voto está em franca recuperação. A presidente subiu 8 pontos em dois meses (o que seria espetacular em outras circunstâncias, não tivesse ela perdido 28 pontos antes disso). A popularidade “pessoal” da presidente chegou a 54% de aprovação, segundo o Ibope.
  5. Um fator que poderia justificar um rompimento com o governo seria algum tipo de grave distúrbio econômico (elevação da inflação, recessão, aumento do desemprego) ou político (grande escândalo de corrupção envolvendo a presidente ou ministros próximos). A decisão de romper com o governo, no entanto, vem num momento em que o desemprego está em queda, assim como a taxa de a inflação acumulada em 12 meses. Por fim, ainda que a atividade econômica não esteja “bombando”, o 2º trimestre subiu 1,5%, superando todas as expectativas. E, apesar do eterno caso do mensalão, não houve nenhuma grande denúncia de corrupção durante o governo Dilma.

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  6. Apesar de ser um partido pequeno, o PSB tem um grande trufo: o número de Estados que controla. Até a decisão de rompimento, eram nada menos que 6 governadores. Além de Pernambuco, o partido governa Piauí, Ceará, Amapá, Espirito Santo e Paraíba. Estados considerados pequenos politicamente, mas que, no conjunto somam cerca de 22 milhões de eleitores, ou 16% do total. Nada mal. Seria um bom começo, não fosse o fato de a decisão precipitada de romper com o governo para lançar candidato próprio não tivesse causado um racha entre seus principais líderes. No Ceará, os irmãos Gomes já saíram do partido. Cid será apoiador de Dilma. No Espirito Santo, Renato Casagrande foi contra a saída do seu partido do governo: é outro que deve fazer apoio velado a Dilma. No Amapá, Camilo Capiberibe diz que “não foi ouvido” sobre a saída do PSB do governo. Casagrande e Capiberibe devem se candidatar à reeleição e têm vices do PT. No Piauí, Wilson Martins era vice de Wellington Dias, que agora deve se candidatar de novo ao governo. Ou seja, romper com o PT no plano nacional, o PSB enfraquece as alianças nos Estados que governam e abre espaço para mais um adversário. Até o momento, o custo da ambição eleitoral de Campos já custou ao PSB 1 dos 6 Estados que controlava até agosto.
  7. A ação de Campos de trazer o PSB para fora do governo, acontece num momento em que dois novos partidos são criados. Embora um deles (Solidariedade) possa até se juntar ao governador de Pernambuco (mas mais provavelmente será aliado do PSDB), o outro (Pros) deve apoiar Dilma. Isso quer dizer que o Pros pode atrair parlamentares do PSB que tem interesse de permanecer aliado a Dilma. De fato, isso já acontece: ao menos 6 dos 35 deputados devem migrar para o novo partido.

***

O ato de Campos ao sair do governo para se lançar à Presidência, portanto, é um passo arriscado, não só para sua ambição pessoal, mas para a ambição do próprio partido.

Conclusão: em uma só tacada, Campos comete 7 erros que podem sepultar sua perspectiva de ser presidente num futuro próximo e também a de seu partido de seguir crescendo e se tornar a terceira força no cenário político brasileiro. Ao queimar etapas, Campos e o PSB correm um sério risco de sair da campanha de 2014 menores do que entraram.

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