Desde que a esquerda ganhou as eleições, passamos para a defensiva. A prioridade era a de reconstruir as políticas públicas e a capacidade do Estado foram destruídas ao longo de 7 anos de governo Temer e Bolsonaro. Não era uma tarefa menor. Dá-se muito mais valor para quem constrói uma casa nova do que para quem apaga o incêndio que poderia ter destruído tudo de vez. Apesar de importante, não era suficiente para consolidar e avançar nosso projeto de transformação social.

Apesar da vitória importante de 2022, o apoio popular à agenda regressiva e fascista permaneceu forte. E, pior, o Poder Legislativo se hipertrofiou e ao mesmo tempo se tornou mais conservador e alinhado à agenda derrotada nas urnas na eleição presidencial. Esse descompasso entre a agenda progressista do Executivo e o enraizamento da extrema-direita no Legislativo e Executivos Estaduais e municipais, bem como a autonomização dos setores políticos da direita tradicional-fisiológica, trouxe um nível sem precedentes de instabilidade para o governo.
Sistema eleitoral e distorções da democracia
Esse processo de “ingovernabilidade” tem fatores estruturais/institucionais do nosso sistema político. Nosso atual sistema eleitoral proporcional de lista aberta é uma fonte de uma série de distorções e consequências nefastas para o sistema político e para as políticas públicas. Do lado do sistema político, aliena o eleitor dos programas partidários em favor de uma ligação pessoal e intersubjetiva com seus candidatos. Isso é um dos fatores que levam um partido como o PT, que tem registrado cerca de 25% de preferência partidária no país, a ter apenas 13% das cadeiras na Câmara. Já sobre o impacto em políticas públicas, o exemplo mais evidente é a hipertrofia do Legislativo no controle do Orçamento, sendo as emendas parlamentares do Orçamento Secreto apenas sua consequência lógica. E agora, o Legislativo avança também sobre a prerrogativa do Executivo de indicar ministro ao STF.
Outra dinâmica que brota do sistema de lista aberta é que, na prática, apenas os candidatos para o Executivo – isto é, presidente, governadores e prefeitos – apresentam um programa (de governo). Só que candidaturas ao Executivo, em especial as competitivas, são geralmente um produto de uma coalizão de várias forças partidárias. Assim, na arena parlamentar, os partidos viram uma coleção de indivíduos seja exercendo o papel de base de sustentação do governo, seja de oposição. Assim, a razão de ser do partido gira em função do Poder Executivo, e os parlamentares buscam apelar à sua base eleitoral. O programa do partido desaparece.
Para romper com essas 2 distorções (de representatividade e fisiologismo), portanto, seria preciso uma reforma política para instituir um sistema eleitoral de lista fechada. Nos sistemas de lista fechada, além da lista pré-ordenada de candidatos, cada partido apresenta ao eleitor um programa partidário. Porém, a atual correlação de forças interdita qualquer possibilidade de uma reforma política nesse sentido. Se, por um lado, a mudança institucional via Congresso Nacional não é, no momento, uma rota viável, por outro, é possível buscar alterar a correlação de forças por meio da organização partidária.
De fato, nada nos impede de apresentar, enquanto partido, uma Plataforma Legislativa – COMO SE estivéssemos sob um sistema de lista fechada. Essa é a essência da minha proposta, a Plataforma Legislativa. A Plataforma Legislativa é um instrumento tanto de mobilização eleitoral, como para avançar na nossa organização partidária. Concretamente, é um documento sintético (sem muito blábláblá que partido de esquerda ADORA), que contém um número estrategicamente limitado de prioridades legislativas do partido.

Essas prioridades devem ser medidas muito claras – inclusive pode ser apoio a propostas já em tramitação – e, muito importante, com grande apelo popular, alto potencial de transformação e em sintonia com o programa partidário do Partido dos Trabalhadores (aí, sim, é o espaço para o blábláblá de fôlego). Seriam medidas viáveis e possíveis de serem aprovadas, caso o partido consiga apoio popular e forjar uma correlação de forças favorável. O número de propostas dependerá da quantidade de consensos e de propostas com alto apelo popular e potencial transformador que o partido conseguir reunir, em cada ciclo eleitoral, de cada nível. Pode ser apenas 2. Pode ser 20.
Quanto mais propostas, mais disperso e difícil de atingir; quanto menos propostas, mais restrito o diálogo e menos apelo vai ter a distintos segmentos da sociedade. Outro equilíbrio que deve ser perseguido é que a plataforma deve conter medidas que os candidatos e mandatários do partido defenderão publicamente e para sua base eleitoral. Por isso, as medidas que integram a Plataforma devem ser resultado de amplo debate dentro do partido, mas também com movimentos sociais, organizações da sociedade civil e com a academia. Pesquisas qualitativas podem ajudar a lapidar a Plataforma – mas o motor principal deve ser nossa base social e política.
Uma vez aprovada a Plataforma Legislativa, todos os pré-candidatos devem subscrever ao documento. Haverá uma Plataforma Legislativa para cada nível de governo (federal, estadual e municipal), e será aprovada pela respectiva instância (diretórios nacional, estaduais e municipais). A Plataforma poderá servir como uma base programática geral para todas as candidaturas legislativas, sem que isso os impeça de agregar suas pautas específicas aos seus materiais de campanha. Mas esse núcleo programático comum pode ajudar muito candidaturas novatas.
A Plataforma tem um potencial como instrumento para:
- Dar coerência e reforçar nossa identidade partidária (partido e político não é tudo igual)
- Dar peso às nossas candidaturas legislativas
- Mobilizar atores externos ao partido durante a elaboração da Plataforma, como movimentos sociais, academia, organizações da sociedade civil, coletivos, associações comunitárias etc.
- Organizar internamente o partido, articulando as propostas dos setoriais, da Fundação Perseu Abramo e dos diretórios locais para a formulação de programas legislativos junto com os parlamentares e candidatos
- Diferenciar o Partido dos Trabalhadores no momento da campanha eleitoral para o Legislativo. Enquanto os demais partidos seguem no “cada um por si”, o Partido dos Trabalhadores se apresenta como uma agremiação coerente, em sintonia com as demandas sociais.
- Se essa proposta for acatada – e surtir um bom resultado – outros partidos certamente vão seguir nosso exemplo. Então, a tática não será mais inovadora, mas poderia contribuir para elevar o nível do debate e começar a pavimentar o caminho rumo à reforma política por um sistema de lista fechada.

Aqui tem um exemplo, resumido, do que seria um texto de Plataforma Legislativa (federal):
- Reforma política – lista fechada com alternância de gênero; implantação com mecanismos de transição (garantir os atuais mandatários no topo da respectiva lista partidária/federativa nas primeiras duas eleições).
- Democratização do fundo eleitoral, com a criação de mecanismos diretos de participação do eleitor e incentivo a doações cidadãs (vouchers eleitorais, abatimento do IRPF, cofinanciamento, microcrédito eleitoral etc.). Limite de doação por pessoa física de 10 salários-mínimos por CPF.
- Fim da escala 6×1. Introdução imediata da escala 5×2 e 40 horas semanais. Pequenos negócios muito afetados receberiam apoio temporário, financiado com aumento à tributação de bets.
- Regulamentação do Trabalho por Aplicativo. Obrigar plataforma de trabalho por aplicativo a contribuir para a seguridade social do trabalhador, proporcionalmente ao tempo trabalhado (até o teto máximo de contribuição); incluir cotização do Estado (subsídio parcial).
- Aperfeiçoamento da PEC das Domésticas. Incluir as trabalhadoras diaristas na PEC das Domésticas, com direitos e contribuições proporcionais ao tempo trabalhado; criação de mecanismos de transição com subsídio decrescente da contribuição por 5 anos
- Taxação de grandes rendas: Alíquota efetiva mínima e progressiva de 12% a 15% para pessoas físicas com rendimentos acima de R$ 1 milhão por ano. Alta na arrecadação seria revertida para financiar a ampliação de escola em tempo integral e universalização de creches
- Revogação do Marco Temporal em consonância com o entendimento do STF e Revisão do Código Florestal: preservação de 80% da área com cobertura vegetal nativa em propriedades privadas nas áreas de floresta fora da Amazônia.
- Aprovação do PL 4216/2021 que institui o Programa Nacional de Moradia por Autogestão, criando regulação que facilita o acesso à habitação para a população de baixa renda por meio do estabelecimento de diretrizes para a produção de moradia por meio de autogestão
- Aperfeiçoar e aprovar a PEC da Segurança Pública: fortalecer o SUSP, aumentar a atuação conjunta e coordenada de órgãos de segurança da União, Estados e Municípios, na definição de estratégias, compartilhamento de informações, padronização de procedimentos e intercâmbio técnico-científico.
- Ampliação do programa Pé de Meia para todos os estudantes da rede pública de ensino. A ampliação seria financiada com a arrecadação do aumento da alíquota de tributação sobre bets.
- Criação da Política Nacional de Adaptação e Mitigação dos Efeitos das Mudanças Climáticas. Proteção social; trabalho e intervenções de infraestrutura – em complemento e sinergia com a política industrial e o Plano de Transformação Ecológica (de curto médio prazo)
- Projeto de Lei para estabelecer parâmetros objetivos para diferenciar usuário de traficante.
- Criação do Sistema Único de Mobilidade, a partir do qual vai se constituir a política nacional de passe-livre.

Por óbvio, esses são apenas exemplos de propostas que poderiam compor uma Plataforma Legislativa do Partido dos Trabalhadores. Uma Plataforma Legislativa, para ser efetiva, não deve ser o produto de apenas uma mente brilhante ou de marketeiro, mas tem que ser fruto de um trabalho coletivo e participativo. Claro que ser coletivo e participativo não quer dizer harmônico. Democracia real é conflituosa. E isso e bom. Mas essa divergência, sempre saudável (ou melhor, saudável desde que construtiva), fica para o processo de elaboração de cada Plataforma Legislativa. E, assim, saímos da defensiva para avançar na luta por justiça social.































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